Uma fábula do espírito urbano

24 02 2008

Preto & Branco

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Já faz um tempo que escrevi sobre este manga [em 2002, penso], mas após ter notícias que ele recebeu um prêmio de melhor publicação japonesa lançada nos Estados Unidos em 2007 [lançado como conseqüência da estréia da adaptação em animação da história, distribuída pela gigante Sony Pictures], além que seu autor [Taiyo Matsumoto] também ser premiado no mesmo ano pelo Japan Media Arts Festival, por seu trabalho em Takemitsu Zamurai; considero que é válido re-visitar esta obra que ainda me intriga pela sua originalidade na arte seqüencial, e pela quantidade de lições que ela ainda pode guardar em seus devaneios.

Preto & Branco [Tekkon Kinkreet, 1998], mais do que nunca, provou para mim, nesses anos correntes, ser um verdadeiro clássico abastardo nem tanto reconhecido pelo grande público por fugir de muitos estereótipos de seu gênero e por tratar de forma surreal o imaginário do espírito urbano contemporâneo [que atormentará o sujeito moderno até o fim dos tempos].

Na obra, Matsumoto [re]inventa uma mitologia das cidades urbanas, atoladas de pessoas, propagandas, medo, lixo e esperanças abortadas. Colando-nos na visão de dois irmãos órfãos: Preto [o demônio violento] e Branco [o inocente]. Eles são garotos de rua que voam entre os prédios, anti-heróis marginalizados e anárquicos. Filhos naturais do próprio ambiente, a Cidade do Tesouro, tomada pela violência e corrupção, que funciona como uma estranha analogia real-fantasiosa da Terra do Nunca, onde as crianças reinam livres para carregarem consigo o espírito do lugar [e da sua época].

Nesse cenário, Preto e Branco regem sem medo sua cidade, roubando-a, alimentado-a, defendo-a com extrema violência [num certo toque de poesia sádica], sendo temidos e protegidos por todos [policiais, Yakuza…]. Vivem pelas próprias regras, como parte do ambiente urbano caótico e desfigurado, até o momento que aos poucos eles percebem que a cidade está mudando, e com ela suas vidas [ameaçadas pelos que pretendem incrementar uma reurbanização a todo custo].

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Assim, somos apresentados a uma realidade surreal, anormalmente violenta e bela, contraditória e de contrastes gritantes, carregada de metáforas cotidianas e um sentimento de que, assim como os personagens, estamos perdendo nossas raízes e vivenciamos a ansiedade de encontrar nosso lugar. Preto & Branco é uma obra de qualidades raras, complicadas de delinear sem antes refletir sobre a relação singular dos dois irmãos, Branco com sua visão surreal da vida [um quase poeta/ esquizofrênico] e Preto com sua natureza explosiva, que tenta a todo custo proteger sua cidade e seu irmão.

Quanto a Taiyo Matsumoto, ele é um mangaká único, underground, poético e de características inconfundíveis. Em seus traços tortos e detalhados, Matsumoto deixa explícito sua influencia européia, especialmente de Moebius, o que justificaria o viés surrealista que incrementa suas obras [ele também é fã de Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, algo que ele deixa implícito em alguns momentos de Preto & Branco].

No Brasil, Preto & Branco teve um lançamento tímido em 2001, em três volumes [o primeiro esgotado] pela Conrad, numa época em que mangá no Brasil era sinônimo de olhos grandes, roteiros para enchimento de lingüiça e com fórmulas prontas [típico de obras do “mainstream” japonês]. Eu mesmo comprei a publicação ao acaso, num canto de uma banca de revistas, ainda lacrada, sem ter mínima noção do que aguardava [e sem saber que era uma série, a Conrad pecou em não determinar isso em nenhum momento do livro].

Nunca me arrependi da aquisição desta série, e espero que com o lançamento do anime da obra no Brasil a Conrad pense em relançar Preto & Branco, numa versão encadernada, como aconteceu nos Estados Unidos.

Dario Mesquita

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O Grandiouso carnaval de Teresina

14 02 2008

 carnaval

Todos os males vêm para algum bem. Tive o prazer (?!) de estar na cobertura do desfiles das escolas de samba teresinenses nesse carnaval 2008. Não fiquei até o final, porque tem determinadas coisas que tiram a sua paciência em menos de duas horas e desfile das escolas de samba de Teresina é um exemplo clássico.
 
Eram atrasos, desorganização, uma estrutura capenga; mas pelo menos uma boa vontade muito grande das pessoas em querer acompanhar aquela balbúrdia. Entre as escolas que vi passar, o contraste era gritante.
 
Vi a Ziriguidum, que por causa das brigas pequenas dos dirigentes não desfilou, com carros luxuosos (para o que se espera em Teresina…) e a Unidos da Saudade que com um número reduzido de componentes e de dinheiro, apenas passou pela avenida.
 
E assim foi. Passou o primeiro desfile, o segundo e veio a apuração das notas que, como todo mundo imaginava, ia dar problemas (para não dizer uma palavra de menor calão, como o dito que se popularizou no filme Tropa de Elite: “vai dar me***!”).
 
Definitivamente, como você faz um concurso sem regulamento? Ainda mais um carnaval como em Teresina no qual os donos (são donos mesmo!!!!) das escolas de samba brigam por tudo.
 
No final das contas a apuração foi um resumo do desfile: desorganizada, sem estrutura e uma grande piada, com duas campeãs.
 
Enfim, esperemos. Quem sabe um dia as pessoas realmente deixem de ir para o interior quando se fala de carnaval em Teresina, mas uma coisa é certa: esse dia está longe, muito longe…

Carlos Rocha





Monstro gigante? Mas, que monstro gigante?

13 02 2008

Cloverfield – 2008

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Antes de qualquer coisa, sou bem suspeito para comentar algum trabalho que tenha sequer o dedo mindinho do J. J. Abrams. Uma pessoa que cria algo aberrante como o seriado Felicity, um dramalhão romântico-existencial-sem-pé-nem-unha, para depois comandar uma das melhores produtoras televisivas norte-americanas, a Bad Robot [mesma que alicerçou projetos como Alias, Lost, Missão Impossível 3, e agora o novo Star Trek], merece meu respeito incondicional por ajudar a criar o que há de melhor no entretenimento de pipoca, sem precisar duvidar da inteligência de ninguém.

Colocando num liquidificador fímilco todos aqueles elementos de ação que devem deixar Luc Besson se cortando de inveja em alguma sala de edição. E assistir Cloverfield, filme produzido por Abrams, só me fez ter mais certeza disso.

Com a direção de um desconhecido Matt Reeves, e carregado por uma das campanhas de marketing virais mais bacanas de 2007 [que começou um misterioso trailer, que deu o nome temporário de “1.18.08” ao filme – infernizando a vida “intelectual” de vários fanboys], Cloverfield é um daqueles raros trabalhos que conseguem redefinir um gênero, fugindo da velha formula “feijão, arroz, bife e fritas”, sem precisar viajar e arrochar os parafusos da estranheza no espectador [afinal, o filme é puro entretenimento pop].

A trama do filme chega a ser bem rasa: Rob Hawkins (Michael Stahl-David) consegue uma promoção na empresa onde trabalha e está de malas prontas pro Japão, em paralelo, ele ainda sabe como lidar seu novo destino profissional com a (in)esperada relação amorosa com sua melhor amiga, Beth (Odette Yustman). A situação dele e de seus amigos vira de ponta cabeça quando, durante sua festa de despedida, um monstro gigante ataca Manhattan enquanto seu mais-que-atrapalhado amigo Hud (T.J. Miller) registra tudo com sua câmera [e seu talento amador de “documentarista”].

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Não existem grande atuações ou personagens carismáticos [a não ser que você compartilhe do humor negro de Hud] que segurem a trama, mas sim um enorme e sedutor clima de suspense, sustentado especialmente pelo ótimo trabalho de design sonoro. São rangidos, grunidos, gritos, tiros, suspiros ofegantes, detalhes mínimos que envolvem todo espírito do filme e intensificando a claustrofobia causada pela visão tremula do subjetivismo de todo filme.

Associado a isto, ainda há pulos de edição (jump-cuts), que quebram o ritmo de alguns planos-seqüência, dando dinamicidade dramática e velocidade a película. Breves momentos de flash-back também ocorrem, já que Hud está gravando por cima de uma fita onde Rob havia registrado seus momentos românticos com Beth, algo que funciona perfeitamente como contraste entre os momentos felizes dos personagens e a situação aterrorizante que passam [e que se vêem na necessidade de documentarem, como se assim buscassem um conforto e identidade diante da destruição colossal que os rodeia, que os reduz a meras vítimas].

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Todos esses elementos acabam por produzir uma obra humana, acima de tudo. Apesar da premissa surreal de um monstro gigante matando a todos, Cloverfield explora muito mais os sentimentos desesperados de seus protagonistas, deixando a criatura e sua história como um pano de fundo necessário para aumentar a cartase para quem assiste [a cartase do sentido de medo e paranóia do desconhecido que molda o ocidente].

Não chega a ser um clássico [ainda], porém, Cloverfield é um ótimo filme pipoca capaz de puxar um mínimo de reflexão do público. Capaz também de deixar um bom número de pessoas curiosas para uma possível continuação do filme, e outro tanto de fanboys se degladiando em fóruns a respeito dos spoilers deixados pela obra.

Dario Mesquita





Vi a vio na televi

8 02 2008

Violência só existe na tevê
Porque você fecha a sala de estar
Para ela não entrar
Já que você não quer ver.

Não adianta querer
Respirar um outro ar
Se não consegue mudar
O seu jeito de ser.

A vida passa pela janela
Mostrando todos os fatos
Mas você só vê a televisão.

Não faça nenhuma querela
Não reclame dos ratos
Se você só acredita na visão.

Emanuel Alcântara





Teu cabelo não nega

1 02 2008

Jornalistas deveriam andar mais de ônibus. Às vezes quando você menos espera pode se deparar com discussões que tem um fundo de relevância. O que toda esta introdução tem a ver com o carnaval? Que há dias atrás cochilava dentro de um ônibus, quando comecei a ouvir a conversa de duas mulheres que criticavam o carnaval de Teresina.

A conversa, pelo menos quando eu comecei a prestar atenção, começou com uma dizendo: “não sei pra que esse negócio de escolas de samba. Eles podiam era pegar o dinheiro e botar um trio elétrico”. Isso me botou para pensar mesmo a respeito da importância das escolas de samba ou pelo menos de como as coisas acontecem hoje.

As escolas vivem em uma briga eterna e vazia (não me venham dizer que elas celebraram a paz porque no ano que vem elas vão brigar de novo) e sem dinheiro para investir. Diferente das meninas da conversa o questionamento que faço é: porque não profissionalizar o carnaval e deixar de depender somente do poder público?

Quanto aos trios elétricos é difícil saber se eles realmente resolveriam a fuga (é fuga mesmo) dos teresinenses para o Norte ou o Sul do Estado. Seria difícil conter essa fuga porque Teresina seria, se tivesse trios elétricos, mais uma cidade com este recurso como Floriano, Água Branca, Bom Jesus e etc.

Voltando à conversa do ônibus, deu vontade de me intrometer no bate-papo para dizer que a cidade precisa de algo próprio e organizado para que seja vista como diferente, e um lugar que possa atrair as pessoas.

Pode até ser que os clubes sejam algo diferente, mas, pela falta da busca de se afirmar com um carnaval vantajoso, Teresina gera aquele sentimento de tristeza para os que ficam os dias da folia de momo na capital.

Carlos Rocha