Albert Piauí sem esconder a loucura

24 04 2009

Thiago Meneses

A entrevista é um dos momentos mais emocionante do jornalismo. E dos mais difíceis também. É na entrevista que nós, jornalistas, chegamos mais perto do que eu costumo chamar de doses espontâneas de ação profissional. As palavras fluem, a química rola e o texto que se seguirá será algo respeitável.

No entanto, a entrevista pode ser, também, um dos momentos mais desagradáveis dessa profissão. Ou pelo fato do jornaleiro não se preparar de uma maneira mimimamente decente para fazer perguntas relevantes, ou pelo fato do pomba-de-gato-estrelão não ser suficientemente aberto para dividir suas experiências e conhecimentos de uma maneira enriquecedora.

Nossa conversa com Albert Piauí, dividida em duas partes, foi ducaralho. A maneira como ele discorreu sobre as perguntas – os assuntos que ele levantava, com a auto-censura sendo mandada pra onde o vento faz a curva – foi o que mais nos impressionou. O fato do cara vir suficientemente aberto para falar da infância no interior até os problemas de gestão do maior evento de humor do Piauí, foi extremamente gratificante e enriquecedor. Deveria ser exemplo pra muita gente aí. Se mostrar, sem medo do que venha a acontecer depois. Seguir o conselho do velho junkie Allen Ginsberg e “não esconder a loucura”.

Albert, como ocorreu sua vinda paraTeresina?

Nasci em Luzilândia, uma cidade que fica às margens do Parnaíba, limitando com o Maranhão e separada pelo rio. E naturalmente é uma cidade que não tinha muita oportunidade. E minha mãe teve que vir a Teresina para que nós estudássemos. Mas eu primeiro fui morar em Goiás, em Goiatuba. Aí eu fui ficando por lá, mas os costumes eram muito diferentes do Piauí. Lá a gente jantava três horas da tarde. Quando chegava a noite, a gente já estava com fome. E a culinária também era muito diferente da culinária do Piauí. Aquilo pra mim foi um choque cultural. E uma cidade rural, baseada na agropecuária, é diferente da minha cidade. Então eu resolvi voltar para Teresina, porque minha mãe já estava aqui. Então cheguei na capital em 68, e Teresina era uma bela cidade provinciana. Todas as ruas eram calçadas de paralelepípedo, todo casario antigo ainda existia e era uma cidade onde a gente podia praticar a boemia. Teresina tinha uma vida boêmia porque o teatro do Piaui já estava crescendo. Então cheguei em 68 eu não conhecia nada, só fui me enturmando depois.

Então você ainda não era um boêmio?

Eu não tinha a prática. Eu teria depois, porque eu já cheguei aqui na adolescência, e como adolescente, eu nunca tinha participado de bebedeiras, não fumava, não bebia e ainda não tinha me envolvido com o movimento cultural e artístico. A rigor, apesar de eu já gostar de humor, de já conhecer os trabalhos de  Millor Fernandes, Carlos Steif, Ziraldo, eu não sabia ainda o que seria quando crescesse. E então foi assim que eu cheguei em Teresina, ainda adolescente. Se não me engano, eu tinha de 14 pra 15 anos de idade.

Quando você começou a colaborar com os veículos de comunicação?

Eu fui morar numa rua, que era a rua Benjamim Constant. Eu era vizinho de um maestro do 25° BC. Todos os filhos dele eram músicos. Nós ficávamos na esquina da rua tocando violão, cantando as músicas que tocavam na época, que eram as músicas da jovem guarda e tropicália, então me envolvi com o movimento artístico, muito restrito àquela rua. Aquelas pessoas que estavam ali queriam ser artistas. Mas o meu interesse mesmo era pelo jornalismo. Desde a adolescência eu comecei a trabalhar em jornal. E minha principal influência ocorreu devido ao jornal O Pasquim. O veículo surgiu no Rio de Janeiro. Era formado por intelectuais, artistas e jornalistas que na época da ditadura não estavam tendo oportunidade de desenhar e escrever na grande imprensa. Porque havia uma censura muito grande. Eram jornalistas de muito talento, como Tarso de Castro,  Millor Fernandes,  Sérgio Cabral (pai do governador do Rio). Aquele era o jornal que Vinícius de Moraes e Chico Buarque escreviam. Mais na frente eram Caetano, Gil, fotógrafos como Carlos Leonan, Luís Carlos Maciel, que escrevia sobre contracultura. Esse jornal era fascinante porque combatia a ditadura atrávés do humor, do riso, às vezes até de textos mal-humorados. De uma maneira muito sutil, claro, porque não poderia ser de uma maneira clara. Então comecei a ler o Pasquim e disse que iria ser jornalista. E era um jornal que publicava desenhos também , não só de artistas brasileiros, mas dos grandes cartunistas europeus. A partir daquele momento eu comecei a abominar a escola e decidi que queria ser jornalista. E então eu comecei a colaborar com uma coluna de música no Jornal O Dia, até que eu consegui uma vaga de chargista. Eu já havia publicado um desenho no Jornal O Estado, do jornalista Hélder Feitosa. Esse homem foi assassinado barbaremente. O crime nunca foi desvendado. 

Foi através da boemia que você fez amigos? Ou foram seus amigos que o levaram a boemia?

As pessoas que eu conhecia eram pessoas da minha idade, que moravam na minha rua mesmo. E naquele tempo a gente não entendia nada de bebida. Então a gente comprava uma coca-cola e uma cachaça, misturava, e a partir daí a gente começou a beber, a se divertir, a conversar. Conversávamos sobre as coisas que estavam acontecendo na época. Como todo jovem, a gente conversava mais sobre música. A Boemia era restrita às pessoas da minha rua, da minha esquina. Eu cheguei em Teresina e não tinha conseguido romper a barreira da minha esquina. Eu só romperia porque a cidade tinha um grupo de pessoas que fazia um teatro de grande qualidade, que talvez vocês nunca tenham ouvido falar, que era o teatro de Ari Sherlock. Ele era um grande ator cearense que veio para o PI, e ele fazia teatro com Tarcísio Prado, Teotônio Silva. Essas pessoas eram os monstros sagrados do teatro piauiense. E eram pessoas que eu só conhecia de nome e eu não imaginaria que um dia eu seria amigo deles. Então, como eu havia publicado trabalhos no jornal, nessa época foi inaugurada a TV Clube, e o Tarcisio achou de fazer um programa chamado TP estúdio e o TP precisava de um cenógrafo para o programa. Eu nunca tinha visto uma TV , não sabia o que era cenografia, e eles foram lá em casa. “ – Viemos te chamar para ser o cenógrafo do programa”. Imediatamente eu aceitei. É claro que eu iria aprender a fazer cenografia só depois. O Ari Sherlock era um grande boêmio, juntamente com o pessoal do teatro. Teresina era provinciana, pequena, tinha um tamanho ideal. Apesar de ser pequena, ela não deixava de estar antenada com as coisas do mundo. A maioria das publicações do sul do país chegavam aqui. A TV estava chegando, e a partir daí, me envolvi com o pessoal do teatro. Depois disso eu me envolvi com a vida de boemia na cidade. Nesse tempo também estava chegando uma instituição criada pelo governo Alberto Silva para formar arte-educadores, pois naquela época não havia universidade ainda. E tinha ainda o maestro Reginaldo Carvalho, que era muito boêmio. Foi nesse meio que eu me inseri.

“O bar era o local onde a gente se reunia para trocar idéias”.

Como era o cenário de boemia? O provincianismo da época influenciou o teu trabalho?

A gente tem que entender que quando eu vim de Luzilândia, o Brasil já era uma ditadura. E então eu passei uma parte da minha infância – toda  a minha adolescência, chegando a fase adulta –  dentro da ditadura. Era uma época que você não podia falar claramente, não podia fazer qualquer coisa, porque entre nós poderia ter um agente do SNI infiltrado, e então havia uma vontade muito grande daquela geração de fazer arte e cultura. Tinha um grupo que fazia o Jornal “O Grahma” (nome do jornal estatal de Cuba), que era um jornal underground, naquele tempo essa palavra se usava a torto e a direito, e então tudo o que não era aceito pela oficialidade era underground. Tinha essa coisa de fazer jornalzinho, geralmente mimeografado. E você nunca sentava em uma roda que não tivesse o poeta, a pessoa que queria fazer cinema (super 8), o outro que queria fazer poesia, cantar, ser instrumentista. Então era todo um ambiente propício para a boemia, porque a gente não tinha outra forma de se manifestar. Na minha opinião, durante a ditadura, o bar era o local onde a gente se reunia para trocar idéias.  A imprensa era censurada, os jornais eram poucos, a TV estava surgindo, não tinha tanta rádio. Então eram nos bares que a gente se reunia para trocar informações. Em Teresina tinham vários lugares para praticar a boemia, lugares que hoje desapareceram. Um dos bares onde aquela intelectualidade se reunia, era um bar chamado Gelatis, na avenida Frei Serafim. O Gelatis era um bar famoso, que servia uma batida de cachaça e um tira gosto de tripa de galinha. Ali se reuniam os atores, músicos e ali aparecia o saudoso Davi Aguiar. Ele era da família Aguiar, foi morar em Minas Gerais. Quando ele voltou, era um homem muito bonito, cabelos grandes, calças boca-de-sino e fumador de maconha. Ele não escondia isso da cidade. Quando ele passava na rua, todo mundo olhava para ele, porque ele era bonito, simpático, risonho, e Teresina não conhecia uma pessoa como o David, ele foi o primeiro cabeludo da cidade, vestindo aquelas roupas exóticas, ele era pintor, fazia painéis e ele mexeu com a vida dessa cidade. Ele era um dos frequentadores do Gelatis. Tinha a estação do trem (hoje o Espaço Cultural Trilhus), e naquela região haviam muitos cabarés, e era um ambiente de prostituição. Era ali que a gente se reunia para jogar sinuca, beber, nós, nossas namoradas, nossos amigos. E o outro ambiente que frequentávamos era a Praça Saraiva, indo ao Bar O Tetéu. Tinha um abrigo no meio da praça que vendia cerveja a noite inteira, porque ali também era um ponto onde paravam ônibus de todo o Piauí, e lá a gente sentava pra beber e conversar. Um outro ambiente era a Paisandu, que era a zona de prostituição da cidade. E todos nós íamos, porque quando tudo fechava, a Paisandu sempre estava aberta, então a gente bebia no meio daquela prostituição toda, se divertia ouvindo música, tinham boates com orquestras tocando, como o Alabama, a Boite Estrela, que tocavam aquele forró tradicional (triângulo, sanfona e zabumba), e nós frequentávamos todos esses ambientes, inclusive as namoradas, que os pais não soubessem, porque naquela época as meninas não tinham essa liberdade toda que tem hoje.

De onde veio  o seu  interesse pelo Humor?

Olha, quando eu morava em Luzilândia, não havia biblioteca ou museu, tinha só um cineteatro onde passavam filmes. A gente só se informava com as revistas que chegavam lá. A revista Cruzeiro chegava em Luzilândia. Inclusive, ela primava muito pela reportagem, além de publicar o melhor do humor brasileiro. Tínhamos o Carlos Steifel, Millor Fernades, o Péricles, que fazia o “amigo da onça” e que foi o 1° personagem de humor brasileiro que todo mundo conhecia. Os donos de oficina rasgavam a página e colavam na parede. Então, eu ia nos bares e estava lá a páigina coldada na parede. Ele era maranhense e viria a se suicidar depois. Apesar do Péricles ser uma grande personalidade no Brasil, ele era muito feio, se achava muito infeliz com a feiura dele. As pessoas o admiravam, ele não podia ir à rua, todos o admiravam. O Millor tinha a página “Principarte”, onde  ele publicava textos e desenhos. Essa página iria sair da revista O Cruzeiro porque o Millor publicou a verdadeira história do paraíso, contando a visão dele sobre o Gêneses. E essa história chocou muito a igreja. Então ele foi proibido de desenhar na revista Cruzeiro. Depois veio o Ziraldo, “com Jeremildo Bol”. Ziraldo era formado em direito, foi para o Rio, e o irmão dele também chegaria. Na minha infância eu via esses desenhos. É claro que eu não sabia o verdadeiros significados deles, mas quando eu vim para Teresina, eu já gostava de desenho de humor. Com o surgimento do Pasquim, aquilo reforçou a vontade de desenhar e de gostar de desenho. E isso também influenciou a gente a fazer o Salão de Humor. Porque a gente não fez o salão à toa. A gente fez o salão sobre algo que nós tínhamos conhecimento. Ele começou pequeno e foi crescendo e chegando às dimensões que ele tem hoje.

O salão de humor nasceu em uma mesa de bar?

A ditadura ainda existia quando eu fiz o salão de humor. E o Humor (cartum, charge) era um instrumento de combate à ditadura. E ele era todo dirigido como forma de combate ao regime. E isso era feito de uma maneira muito sutil, para que a Polícia Federal e os orgãos de informção não percebessem. Nós estávamos sempre sendo chamados a depor por uma charge que você publicava no jornal, aquela coisa toda. Eu fui preso. O que acontece? A gente estava num bar chamado Tia Ana, eu, Zé Elias e Kenard. E a gente sempre tinha conversas e idéias no sentido de querer salvar a cultura piauiense. Porque Teresina tinha uma cultura oficial estabelecida pela Academia Piauiense de Letras.  Daí existia a gente, que éramos da parte marginal da cultura, não que nós nos considerássemos, mas ainda não tínhamos nos inserido, e a cidade sempre teve um movimento cultural fechado, e a academia, de certa forma, representava tudo isso. E era tão verdade, que existiam alguns bares em que de um lado sentava o pessoal da academia e do outro lado sentava o pessoal da contracultura. Esse local ficava ali perto da igreja São Benedito, onde hoje é o Ed Bar. E eles ficavam falando mal da gente e nós, deles. Mas depois todos nós ficamos amigos, mas na época era assim. E então pensamos na idéia de fazer esse salão de humor do Piauí, no bar Tia Ana. Principalmente porque a gente achava que havia essa possibilidade de fazer isso em Teresina, mesmo a cidade não tendo uma tradição de humor. E como éramos leitores desses jornais de humor que publicavam no Brasil, a gente vivia impregnado disso, víamos o trabalho dos grandes artistas brasileiros, e decidimos fazer o salão. Então ele nasceu pequeno e depois cresceu, da cabeça minha, do zé Elias e do Kenard Kruel.

Família

Minha mãe é de uma família rural e meu pai de uma família de funcionários públicos. Então eu vivi entre a cidade e o campo. Todas aquelas brincadeiras dos meninos do campo e da cidade forami muito boas para a minha infância. Eu casei algumas vezes. Do primeiro casamento eu tive dois filhos: o Thiago e o Felipe. Ambos são fotógrafos. O Felipe é historiador e o Thiago é artista plástico. Eles moram em Curitiba. Depois eu me casaria com a Helena e teria mais dois filhos: O Pedro de Helena e o Albert Nane. O Pedro é publicitário e designer gráfico, trabalha numa das grandes agências de São Paulo, a Fnasca, e o Nane é fotógrafo, músico e artista plástico. Todos enveredaram por esse lado. Eu nunca Influenciei eles para arte. Não me envolvi com eles conversando sobre arte, é uma coisa que saiu deles mesmo. Talvez seja por causa do meio em que eles viveram, num ambiente artístico, então era natural que eles se interessassem por arte. E eles foram muito novos para Curitiba, e lá tem um ambiente cultural muito desenvolvido. Em outro relacionamento, eu tive uma filha que é a Lise. Às vezes ela é atriz, ela é fotógrafa, às vezes ela faz poema. E tive outros relacionamentos sem filhos. Um mora em São Paulo, três moram em Curitiba, e a menina mora aqui em Teresina. Todos são artistas, favorecidos pelo ambiente de Curitiba. Lá existem muitos museus, escolas de arte, a própria cidade, como é tratada, favorece o ambiente artístico.

Albert, houve algum motivo específico para sua entrada no espiritismo?

O espiritismo é espiritismo. Ele tem esse nome porque na época não tinha um nome científico para se dar para a atividade do mundo espiritual, da existência do espírito. A primeira pessoa a fazer esse tipo de investigação de uma maneira coordenada e experimental foi Alan Kardec. E como naquela época o Kardec teve dificuldades de terminologia, ele chamou o espírito de períspirito, ele chamou  reencarnação, que na verdade, é um nome que não combina. Ele foi o primeiro a sistematizar essa investigação, se existe ou não existe espírirto, se ele existe, onde ele mora, como ele é, se ele mora em algum lugar, como ele mora. Então o Kardec começou a fazer esse tipo de investigação. Eu não me importava muito com isso. Até que um dia, levado por uma namorada, eu fui pra Federação Espírita. Eu não tinha muito o que fazer pela tarde, então participei de um grupo de estudos sobre o livro dos espíritos. Eu recomendo que todos leiam, porque é um livro muito bonito, de perguntas e respostas, e quando eu comecei a estudar esse livro, eu achei que tudo o que estava ali tinha consistência. Depois eu fui aprender como ele fazia a investigação dele. Isso independente de religião, porque espiritismo não é religião. Então eu continuei estudando naquele grupo,  me interessando pelo assunto e comecei a levantar bibliografia sobre as pessoas que fizeram investigação nessa área na parte científica. Então eu fui estudar mais, vi que era uma coisa muito séria. Depois disso, eu resolvi reabrir um centro espírita que estava fechado e que era o primeiro centro espírita do Piauí, o mais antigo, com mais de 50 anos. Foi assim, junto com um grupo de amigos, que reativamos o Centro Espírita Bezerra de Menezes, que por muito tempo, junto à escola que funcionava junto com ele, educou toda aquela região do Matadouro e do Pirajá.

“Eu nunca fui místico. Aquilo (o espiritismo), pra mim, serviu para aprender sobre uma coisa que eu era”

Foi uma busca interior?

Não. Porque eu nunca fui místico. Aquilo, pra mim, serviu para aprender sobre uma coisa que eu era. Eu acho que o espírirto existe, o mundo espiritual é uma realidade e eu queria saber como era. O que é o espírirto, por que estou aqui, o que vai acontecer comigo quando eu morrer, como é o processo da morte? Se havia uma maneira pra eu saber disso, era lendo quem pesquisou. Se você quer saber de química, o que você vai fazer? Você vai atrás de um livro atrás das pessoas que pesquisaram. Com matemática é a mesma coisa. E eu queria aprender com as pessoas que fizeram a investigação psíquica. Então eu reabri o centro espírita e nós começamos a atender o público. Reabrimos também as reuniões onde nós conversávamos com os espíritos. Então começamos um trabalho para ouvir os espírirtos. E esse grupo dizia coisas lindas, eles falavam com muita poesia, tocavam o coração. Infelizmente essas conversas se perdiam. Então eu pedi autorização para conversar com essas entidades e copiar o que eles diziam. Mas eu perdia muitas frases, porque eles falavam muito rápido. Posteriormente, eu pedi permissão para gravar. Durante três anos, eu gravei uma série de diálogos com espíritos. Estou colocando no papel. Meu envolvimento não foi religioso, foi apenas de investigação. Então eu dirigi o centro durante seis anos, conversava com as pessoas. Tinha gente que chegava chorando, rindo, zangado e eu nunca ganhei nada por aquilo. Depois desses seis anos, eu entreguei a direção para outras pessoas que se formaram lá. Então o interessante é que durante oito anos em que eu me envolvi com a doutrina espírita,  eu não fumei, não bebi, não comia carne de gado, peixe ou frango e não falava mal de ninguém, não fazia muitas coisas, eu não ia a show de rock. E depois que eu entreguei o centro, eu fui tomar uma Schinkariol, e hoje eu fumo, bebo, vou ao show de rock, como carne e às vezes sem querer eu falo mal, mas essa parte eu não faço muito não (risos). Eu vivi oito anos envolvido nessa área. Eu fiz com muita sinceridade,  li bastante toda a literatura, fui descobrindo o que era certo e o que era errado, o que prestava e o que não prestava nessa bibliografia, e hoje eu estou querendo  aprofundar em outras áreas.

Confira a segunda parte da entrevista com Albert Piauí na próxima semana.

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Albert Piauí

21 07 2008

Quando falamos de Albert Piauí lembramos logo do Salão de Humor, da Fundação Nacional do Humor, dos inúmeros cartuns criados para jornais locais e nacionais. O que muitos não sabem é como a boemia contribuiu para esse ilustre fazer parte do cenário jornalístico, cultural e artístico piauiense e nacional.

Natural de Luzilândia, chegou a morar em Goiatuba-GO e no Rio de Janeiro, mas sua trajetória artística começa mesmo na cidade de Teresina. Chegando à capital piauiense no ano de 1968, Albert conheceu um campo fértil para produzir. Antes de mudar-se para a capital, conhecia os traços de cartunistas nacionais como Millor Fernandes e Ziraldo, mas sua identificação com o movimento cultural ainda não nascera. Isso ocorreu durante encontros com amigos na Rua Benjamin Constant, no Centro da cidade, onde morou na adolescência pôde desfrutar da proximidade com a música. Vizinho de um maestro do 25º Batalhão de Caçadores do Estado, sendo este pai de três filhos, todos músicos, contou com este contato para apreciar a arte musical.

Estando entre artistas e influenciado pelo jornal carioca O Pasquim foi aos poucos se apaixonando pela produção jornalística, pois muitos dos jornalistas do jornal carioca pertenciam ao campo artístico. Aos dezoito contribuíra com cartuns no jornal O Dia, mas a paixão e a produção de cartuns surgiram bem antes, ainda na sua cidade natal.

Quando o pai de Dodó Macedo foi transferido de Piracuruca para a cidade de Luzilândia, cidade a beira do Parnaíba há 242 km da capital, Teresina, não imaginava encontrar na cidade alguém que desfrutasse da mesma paixão dele pelos quadrinhos. Quando procurou alguém que teria algumas revistas em quadrinhos indicaram-no a um outro garoto, chamado Albert . A partir desse momento, os dois passaram a compartilhar um interesse em torno dos desenhos e logo mais as charges e cartuns.

Em Teresina, Albert guardou consigo essa paixão pelo humor no jornalismo, e com as amizades na capital foi conhecendo aqueles que faziam o movimento cultural na cidade nas décadas de 60 e 70.

Pôde contribuir primeiramente no jornalismo cultural escrevendo sobre música em uma coluna no jornal piauiense O Dia. Mesmo tendo feito uma charge para o jornal O Estado, demorou um pouco até que pudesse contribuir com aquela que era sua principal paixão desde a infância, o cartum.

Com o seu trabalho em mídia impressa obteve reconhecimento na cidade, sendo chamado por um grande nome do teatro da época, Tarcísio Prado, para ser cenógrafo de um programa cultural da recém criada TV Clube o: “TP Estúdio”.

Começou a fazer parte da chamada ala dos artistas marginais, ou seja, aqueles que participavam do movimento cultural, mas estavam de fora da arte constituída produzida pelos pertencentes a academia piauiense de letras. Em bares como o Gelatis, na Avenida Frei Serafim eram produzidas canções e produções artísticas.

Devido a repreensão da ditadura militar era difícil saber quem era ou não um espião do governo. A única forma de driblar isso e produzir arte de denuncia era dentro da marginalidade. E essas idéias e ideais eram criados nas rodas artísticas em bares da capital.

Numa dessas rodas surgiu o tão conhecido Salão de Humor do Piauí. Albert Piauí, Zé Elias Área Leão e Kenard Kruel criaram a idéia do salão aos moldes do que existia em Piracicaba – SP com a finalidade de salvar a cultura que era produzida no Estado. Durante o Salão de Humor seriam expostas inúmeras produções locais e nacionais, elevando o gênero a uma popularidade ainda não conquistada em terras piauienses.

Com algumas facilidades políticas – Zé Elias trabalhava na então secretaria de cultura do Estado – o salão saiu. Pequeno ainda, mas aos poucos foi crescendo e tornando-se marca registrada no folclore local.
Idéias e produções criadas dentro das rodas de bate-papo entre amigos e acompanhadas por bebidas só foram cessadas quando Albert resolveu conhecer melhor o espiritismo. Levado por uma namorada conheceu a Fundação Espírita participando de estudos sobre a principal obra produzida com a temática: O Livro dos Espíritos. Assim, inicia-se uma busca pelo crescimento de outro lado seu, o espiritual. Proporcionando a partir desse episódio construções importantes na sua trajetória.

Sem dúvida um dos principais legados de Albert Piauí são a Fundação Nacional do Humor e o Salão do Humor. No entanto, os mesmos sofrem alguns problemas administrativos. Segundo o Albert, as dificuldades do salão de humor ocorrem por uma dificuldade sua de comunicação com os outros setores da sociedade civil, coisa que, segundo o próprio cartunista, ele não faz tão bem como a sua arte “eu acho que eu não sou um bom administrador porque eu estou tentando reformar um prédio a dez anos eu não consigo reformar”, afirma.

Muitas vezes por falta de um planejamento prévio, as atividades do Salão e da Fundação são minimizadas. Como o que ocorrera em 2007. Ano que comemorava as 25 edições do evento de humor no Piauí, mas que por falhas no processo de organização deixou-o bem menor que edições anteriores.

Emanuel Alcântara

Para conferir a primeira parte clique aqui.





O Boêmio

20 07 2008

Quando falamos de Albert Piauí lembramos logo do Salão de Humor, da Fundação Nacional do Humor, dos inúmeros cartuns criados para jornais locais e nacionais. O que muitos não sabem é como a boemia contribuiu para esse ilustre fazer parte do cenário jornalístico, cultural e artístico piauiense e nacional.

Natural de Luzilândia, chegou a morar em Goiatuba-GO e no Rio de Janeiro, mas sua trajetória artística começa mesmo na cidade de Teresina. Chegando à capital piauiense no ano de 1968, Albert conheceu um campo fértil para produzir. Antes de mudar-se para a capital, conhecia os traços de cartunistas nacionais como Millor Fernandes e Ziraldo, mas sua identificação com o movimento cultural ainda não nascera. Isso ocorreu durante encontros com amigos na Rua Benjamin Constant, no Centro da cidade, onde morou na adolescência pôde desfrutar da proximidade com a música. Vizinho de um maestro do 25º Batalhão de Caçadores do Estado, sendo este pai de três filhos, todos músicos, contou com este contato para apreciar a arte musical.

Naquela rua, dentro das rodas de música, acompanhada de cachaça misturada com coca-cola, tocando e cantando músicas da época como a Jovem Guarda e a Tropicália, Albert teria os primeiros contatos com a arte e com alguns artistas da Teresina daqueles dias.

Estando entre artistas e influenciado pelo jornal carioca O Pasquim foi aos poucos se apaixonando pela produção jornalística, pois muitos dos jornalistas do jornal carioca pertenciam ao campo artístico. Aos dezoito contribuíra com cartuns no jornal O Dia, mas a paixão e a produção de cartuns surgiram bem antes, ainda na sua cidade natal.

Quando o pai de Dodó Macedo foi transferido de Piracuruca para a cidade de Luzilândia, cidade a beira do Parnaíba há 242 km da capital, Teresina, não imaginava encontrar na cidade alguém que desfrutasse da mesma paixão dele pelos quadrinhos. Quando procurou alguém que teria algumas revistas em quadrinhos indicaram-no a um outro garoto, chamado Albert . A partir desse momento, os dois passaram a compartilhar um interesse em torno dos desenhos e logo mais as charges e cartuns.

Em sua cidade natal, Albert Piauí teve acesso as principais revistas da época, como a publicação O Cruzeiro que reunia o melhor do humor no jornalismo na época. Usado como forma de mídia de resistência, a charge e o cartum, puderam retratar fatos e personagens que marcavam os “anos de chumbo. Na tentativa de fugir dos órgãos de repreensão existentes.

Em Teresina, Albert guardou consigo essa paixão pelo humor no jornalismo, e com as amizades na capital foi conhecendo aqueles que faziam o movimento cultural na cidade nas décadas de 60 e 70.

Pôde contribuir primeiramente no jornalismo cultural escrevendo sobre música em uma coluna no jornal piauiense O Dia. Mesmo tendo feito uma charge para o jornal O Estado, demorou um pouco até que pudesse contribuir com aquela que era sua principal paixão desde a infância, o cartum.

Com o seu trabalho em mídia impressa foi reconhecido na cidade, sendo chamado por um grande nome do teatro da época, Tarcísio Prado, para ser cenógrafo de um programa cultural o da recém criada TV Clube o TP Estúdio. Através desse episódio, ultrapassaria aquele cenário da boemia cultural que outrora limitou-se, apenas, aos seus amigos de Rua Benjamin Constant.

Começou a fazer parte da chamada ala dos artistas marginais, ou seja, aqueles que participavam do movimento cultural, mas estavam de fora da arte constituída produzida pelos pertencentes a academia piauiense de letras. Em bares como o Gelatis, na Avenida Frei Serafim era produzidas canções e produções artísticas.

Por causa de repreensão da ditadura militar era difícil saber quem era ou não um espião do governo. A única forma de driblar isso e produzir arte de denuncia era dentro da marginalidade. E essas idéias e ideais eram criados nas rodas artísticas em bares da capital.

Numa dessas rodas surgiu o tão conhecido Salão de Humor do Piauí. Albert Piauí, Zé Elias Área Leão e Kenard Kruel criaram a idéia do salão aos moldes do que existia em Piracicaba – SP com a finalidade de salvar a cultura que era produzida no Estado. Durante o Salão de Humor seriam expostas inúmeras produções locais e nacionais, elevando o gênero a uma popularidade ainda não conquistada em terras piauienses.

Com algumas facilidades políticas – Zé Elias trabalhava na então secretaria de cultura do Estado – o salão saiu. Pequeno ainda, mas aos poucos foi crescendo e tornando-se marca registrada no folclore local.
Idéias e produções criadas dentro das rodas de bate-papo entre amigos e acompanhadas por bebidas só foram cessadas quando Albert resolveu conhecer melhor o espiritismo. Levado por uma namorada conheceu a Fundação Espírita participando de estudos sobre a principal obra produzida com a temática: O Livro dos Espíritos. Assim, inicia-se uma busca pelo crescimento de outro lado seu, o espiritual. Proporcionando a partir desse episódio construções importantes na sua trajetória.

Em conjunto com um grupo de pessoas, conseguiu reabrir o primeiro centro espírita de Teresina, Bezerra de Meneses. A partir daí iniciou-se todo um trabalho voltado para a educação e o trabalho de atendimento dentro da doutrina espírita. Essa iniciativa pôde educar inúmeras pessoas das regiões do Matadouro e Pirajá dentro da doutrina.

Esse envolvimento não foi religioso, e sim, de investigação de perguntas básicas que todos nós nos fazemos. De onde viemos? Existem ou não existem espíritos? Para onde vamos no pós-morte? Buscando respostas, por 6 anos, abdicou de muitos prazeres como a bebida, o rock, a carne vermelha.

Alguns detalhes pessoais de Albert Piauí são um tanto controversos, em especial, ao que lida com a família. Teve muitas mulheres, mas apenas com três delas teve filhos. Ao todo são cinco frutos desses relacionamentos. Do primeiro casamento teve Thiago e Felipe. Depois se casaria com a Helena e teve mais dois filhos. Pedro de Helena e Albert Nane todos moram em Curitiba, com exceção do Pedro que mora atualmente em São Paulo. Por último teria sua única filha Lise que vive em Teresina.

Todos os seus filhos trabalham diretamente ou tem ligação com a arte. Sejam como fotógrafos, músicos ou atores. Segundo o pai, ele não teve nenhuma influência na escolha deles, mas como quatro deles moram ou moraram em Curitiba, um dos cenários culturais mais importantes do país, isso pode ter contribuído para a escolha profissional dos seus descendentes.

Sem dúvida um dos principais legados de Albert Piauí são a Fundação Nacional do Humor e o Salão do Humor. No entanto, os mesmos sofrem alguns problemas administrativos. Segundo o Albert, as dificuldades do salão de humor ocorrem por uma dificuldade sua de comunicação com os outros setores da sociedade civil, coisa que, segundo o próprio cartunista, ele não faz tão bem como a sua arte “eu acho que eu não sou um bom administrador porque eu estou tentando reformar um prédio a dez anos eu não consigo reformar”, afirma.

Muitas vezes por falta de um planejamento prévio, as atividades do Salão e da Fundação são minimizadas. Como o que ocorrera em 2007. Ano que comemorava as 25 edições do evento de humor no Piauí, mas que por falhas no processo de organização deixou-o bem menor que edições anteriores.

Rômulo Abreu
Thiago Meneses
Emanuel Alcântara
Romeu Tavares





“Pô, eles estão falando mal da gente de novo”

19 07 2008

Entrevista com Alex Antunes, ex-editor da revista Bizz
por Thiago Meneses – Murilo Basso

A revista Bizz surgiu no ano de 1985, junto a um bom momento da indústria fonográfica brasileira. Foi por essas épocas que ocorreu o 1° Rock in Rio, bem como o “boom” do Brock, com bandas nacionais como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Blitz, RPM, Engenheiros do Hawaii estourando nas rádios de todo o país. Suas páginas, por muito tempo, foram a principal referência no Brasil sobre música. Com um estilo peculiar que ficou marcado pela irreverência, bom humor e críticas ácidas, a Bizz conquistou um público fiel que perdurou durante muitos anos, mesmo após o primeiro fim da revista, em 2001.

Após uma fase de geladeira, a revista teve esporádicas publicações, sempre na forma de “edições especiais”, até voltar novamente às bancas em setembro de 2005. Em um contexto totalmente diferente, onde a internet já era uma realidade, a revista não consegue manter a mesma longevidade de sua primeira fase e volta a cair em julho de 2007, com a última capa ironicamente retratando o fim da banda Los Hermanos.

Tentar entender os motivos que fizeram com que a Bizz caísse, provavelmente demandaria muito tempo e disposição para entender a complexa lógica de funcionamento de uma revista impressa em um mercado tão segmentado. No intuito de pelo menos nortear esse panorama tão complexo, é que eu (Thiago Meneses, estudante de jornalismo da UFPI) e o companheiro Murilo Basso (PUC-PR) entrevistamos, via email, alguns dos companheiros (Alex Antunes, José Flávio Júnior, Paulo Terron, Pedro Só) que atuaram nas diversas fases da Bizz. O que a gente pôde perceber, e acredito que o leitor também verá dessa forma, é que o problema é bem mais cabuloso do que um diagnóstico inicial possa supor: Fiquem a vontade, e tirem (será que é possível?) suas próprias conclusões.

Alex Antunes é jornalista, escritor e produtor musical. Dirigiu a revista Bizz, fundou a revista Set e escreveu para os cadernos de cultura da Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Veja, entre outras publicações; atualmente é colaborador da Rolling Stone Brasil.

Ainda existe crítica musical no Brasil? De que forma ela se manifesta? Onde ela está?

A primeira distinção a se fazer é entre crítica musical e crítica musical pop.

A crítica musical pop incorporou certos modos do jornalismo gonzo de Hunter Thompson e de seu principal seguidor no jornalismo musical, Lester Bangs. A saber, importa menos a discussão técnica e estética sobre a música do que o impacto subjetivo que ela provoca no (assim chamado) crítico, como ouvinte. A única coisa que distingue um crítico pop de um ouvinte comum é a disposição daquele em expressar sua percepção musical em um gênero líterário-jornalistíco, próximo do que no Brasil se chama de crônica.

A exacerbação dessa tendência levou à disseminação dos blogs musicais. Isso não é um fenômeno nacional. Nesse sentido há sim, crítica musical, cada vez mais – na medida em que há cada vez mais desses cronistas pop na internet. No sentido que aproxima a crítica pop da crítica musical erudita, há cada vez menos.

O mercado musical está cada vez mais segmentado. Sendo assim, ainda cabe uma revista de música no Brasil que se aproxime dos moldes da Bizz? De que forma ela se adequaria ao quadro atual?

O que determinou a importância da Bizz nos anos 80 foi a combinação entre determinadas condições político-sociais e de mercado, que permitiram que a revista apresentasse, por assim dizer, o Brasil urbano carente de uma expressão musical condizente com a juventude da época a uma onda emergente de rock (nacional e internacional) pós-punk.

A circulação de informação era precária. Não havia internet; nem todos os discos supostamente importantes eram lançados no país e a importação de vinis era cara; não havia tecnologia de reprodução doméstica de discos sem perda considerável de qualidade da cópia (fita K7, no caso); as próprias bandas brasileiras emergentes precisavam de um interlocutor na imprensa – os jornais mais antenados, como a Folha de São Paulo, ainda não tinham impressão em cores e não havia MTV, então o formato revista era importante inclusive na divulgação da imagem das bandas. Ao mesmo tempo, o impacto ainda recente do punk permitia uma discussão histórica das conexões entre a sonoridade da época e as raízes do rock e, em termos de Brasil, a relação entre as bandas de pop urbano e a música brasileira (questão colocada pela Tropicália e muito carente de respostas nos anos 80).

Evidentemente hoje não há a menor necessidade de uma revista que responda essas questões. Mas a saturação de informação através da internet e outros meios digitais abre espaço, sim, para um tipo de revista que proponha certos filtros de escolha e reflexão.

Existe uma deficiência de conhecimento, por parte dos grandes veículos de comunicação, desse público segmentado pela internet? Como conhecer melhor esse público, saber suas preferências e então, traçar estratégias no sentido de adotar uma linha editorial que sobreviva em meio a um mercado em crise?

A visão corporativa de imprensa é totalmente antagônica com a nova cultura eletrônica – cujas características são exatamente a simultaneidade e a desierarquização (como se vê inclusive nos festivais de formato mais contemporâneo). Um grande veículo jornalístico não tem critério nem espaço para filtrar simultaneamente toda a informação que circula, porque já não há um eixo, nem comercial nem cultural, em torno do qual organizar a diversidade dos fenômenos. Tudo é igualmente (des)importante.

Na verdade os grandes veículos jornalísticos foram superados pelas empresas de tecnologia voltadas para as ferramentas de circulação, e não de geração, de conteúdo. Nesse sentido, um site de relacionamento – sem filtro artístico que não seja o das próprias tendências da música pop, como o MySpace – faz um dos principais papéis que as revistas de música já fizeram. A não ser, claro, no caso de uns poucos fenômenos de mercado. Uma revista como a Capricho, tratando do RBD, por exemplo, evidentemente ainda cumpre um papel comercial, mas jornalisticamente irrelevante.

Pior que isso, o que restou da crítica nos grandes veículos ainda se dá ao luxo de hostilizar fenômenos notáveis – como o rock emo – ao invés de tentar compreendê-los melhor. Uma revista de música pop hoje teria que se equilibrar, com extrema habilidade, entre material histórico e fenômenos de transitoriedade muito rápida, pinçando artistas que ilustrem, de alguma forma, essa aceleração do processo cultural.

Se adequando as novas tecnologias e aos novos padrões de vendagem, o que significa ser bem sucedido hoje em dia com uma revista impressa?

Há um paradoxo hoje entre custos industriais e patamares viáveis de distribuição. Com o agravante, no Brasil, do tamanho do território e do fosso de hábitos de consumo entre as capitais e o interior.

Uma revista que venda 10 ou 20 mil exemplares, para determinados nichos, seria uma revista muito bem sucedida. E pode até ser, se tiver anunciantes fortes. Mas o que era o anunciante forte para a música pop – as gravadoras – desapareceu. Então, uma revista de cultura pop precisa de uns 50 ou 70 mil leitores – mas isso dificilmente irá acontecer.

O que mudou no “fazer revista cultural” da década de 80 para os anos 2000?

A horizontalidade, a simultaneidade, a desierarquização. Uma revista feita com a mentalidade antiga – de levantar ou de derrubar artistas de acordo com uma luta por espaço no mainstream, seja por razões comerciais ou ideológicas, simplesmente não faz mais sentido, já que não há mais mainstream.

Quais seriam as formas ideais de tratar a informação em uma revista impressa hoje, principalmente levando-se em consideração as novas tecnologias?

Não está claro ainda. A tentativa mais interessante, no Brasil, foi a da revista Play, da editora Conrad. Mas, no papel impresso, a navegação não-linear não funciona. A revista que tenta se comportar como um site simplesmente fica suja e editorialmente picada demais.

Existe uma espécie de nostalgia com formato consolidado nos anos 80 e 90 que talvez não fosse o “ideal” para o atual momento?

Para um pequeno nicho, sim. Mas teria o mesmo impacto cultural de um show com Leoni ou Morrissey. Ou seja, não muito.

Quem era o nicho ou “público alvo” da última fase da revista BIZZ? Quais as formas para perceber suas especificidades?

Eram os antigos leitores da fase áurea da revista, agora na faixa dos 20 e muitos aos 50 anos, e de maior poder aquisitivo. Mas a revista não dialogou bem sequer com esse público. Por exemplo, os entrevistões (seção de maior fôlego da revista) fixaram-se em artistas da fase intermediária dos anos 90 – Nando Reis solo, Marisa Monte, Lenine – e insatisfatórios, portanto, tanto do ponto de vista dos saudosos quanto dos que prefeririam material atual.

As dificuldades financeiras para a realização do jornalismo cultural são uma extensão direta da própria questão cultural? Como isso afeta os leitores e os anunciantes?

Sim, essa é uma boa maneira de resumir: as dificuldades jornalísticas e financeiras para a realização da cobertura cultural são extensões diretas da dinâmica da própria questão cultural. É um contexto complexo demais para ser vendido a um anunciante (já que uma revista vende muito mais a sua importância a esse anunciante, do que vende os produtos desse mesmo anunciante a seus leitores).

Como era a relação entre revista e anunciantes/patrocinadores nos anos 80? Quais mudanças ocorreram ao longo desses 20 anos?

O prestígio da Bizz nos anos 80 permitia total autonomia entre a redação e a área comercial. Houve caso de um álbum ser massacrado na seção de crítica, e ter um anúncio de página inteira ao lado. Aconteceu com o Jean-Michel Jarre, por exemplo. Claro que o anunciante não gostava, e podia até mandar reclamações sobre o mau-humor da redação em determinadas críticas – como aconteceu com o Gilberto Gil, que considerou uma resenha particularmente ofensiva. Mas nada disso abalava a percepção do anunciante de que estar na revista era imprescindível. Cheguei a imaginar um marketing invertido para explorar essa credibilidade: quando o RPM ia ter seu filme produzido (algo que nunca aconteceu) e nos ofereceu merchandising, propus para o diretor de grupo que entrássemos em uma cena em que a banda lesse a revista e comentasse: “Pô, eles estão falando mal da gente de novo”. Mas ele não achou boa idéia (risos).

Hoje, em função das dificuldades comerciais, uma revista teria que ser bem mais cautelosa com os anunciantes. Na verdade, as revistas pequenas vendem matéria casada com anúncio. Obviamente isso não faz bem pra credibilidade de ninguém, nem do anunciante. O próprio leitor tem vergonha de encontrar um anúncio junto a uma matéria que elogie o próprio artista.

Como é a relação da imprensa musical com o meio artístico?

Na cartilha gonzo, um jornalista é um igual, ou seja, alguém com o mesmo direito a quebrar copos e dar vexames.

Na cartilha do mais recente jornalismo de celebridades, é um baba-ovo acrítico, diametralmente oposto ao jornalista objetivo da cartilha tradicional.

Um jornalista perfeito, hoje, saberia incorporar saudavelmente algo esses três modos:

a) ganhando o respeito dos artistas ao freqüentar os mesmos ambientes com a mesma paixão;

b) entendendo o funcionamento do celebrity system, e reconhecendo os raros artistas que hoje tem o carisma para crescer em diferentes públicos;

c) guardar algo da objetividade e da crítica para ressaltar os aspectos estéticos do trabalho de alguém e relativizar, em seus textos, a importância dos outros aspectos (casuais) da notoriedade.

Não sei se existe algum desses.