Chuta Rabos!

3 10 2008

Quem leu quadrinhos por quase toda década de 1990 se lembra muito bem. Principalmente aqueles que tentaram acompanhar, corajosos que faltavam rasgar suas revistas e enviar cartas bombas ao editores de editoras como Marvel e DC. Nesse fadado período, em meio a mega eventos e crises de venda, muito se difundiu o conceito de personagens humanos nos quadrinhos, inspirados na linha de narrativa de algumas obras do final da década de 1980, especialmente Watchman.

O problema era que nem todos tinham o tino que gente como Alan Moore ou Frank Miller. O problema era também que na verdade eles não entendiam bem o que na verdade era o diabo de um personagem mais humano. Daí dá-lhe Homem Aranha metido num dramalhão sem fim. Dá-lhe X-men metidos numa novela mexicana sem fim. E finalmente, fodam-se personagens clássicos como Batman e Superman que vão parar no saco.

Enfim, grande parte dos editores sacaram que super herói humano era super herói que apanhava até se chorar ou babar sangue nos litros. E isso dava nos nervos! Eu mesmo sou incapaz de citar algum autor de respeito dessa fase, digo, autor que se destaque. Pessoas de calibre grosso de hoje em dia, naqueles tempos estavam engatinhando em publicações menores e vendo de longe a bagaça correr. Entre esse povo estavam pessoas como o escocês Mark Millar, uns dos que deram o ponta-pé na mudança no mercado de quadrinhos de super heróis americanos depois de 2000, e que recentemente, junto com John Romita Jr., criou a publicação Kick-Ass. Uma revista que, por mim, ensina tin-por-tin como deveriam ser os chamados heróis humanos na década de 1990.

Antes, quero dizer que Millar é um daqueles autores que entendem sobre a mitologia moderna que há por trás dos heróis dos quadrinhos, e que super heróis são superiores as pessoas comuns, o que torna sua contextualização na realidade algo absurdo. E é assim que Millar tratar suas criações.

Em Kick-Ass ele e Romita Jr. retratam Dave Lizewski, um jovem nerd americano e fã de tranqueiras pop, que decide ao acaso se tornar um vigilante da noite. Não por vingança ou por ter poderes que lhe dêem responsabilidades, mas por puro prazer e por adorar heróis. Ora, seguindo o pensamento do personagem: porque todo mundo quer imitar os astros babacas e inúteis da TV e não os heróis? Por que as pessoas só pensam em ter lucros diante de uma vida entediante e escrava enquanto elas poderiam viver em liberdade e ainda ajudando as pessoas?

 

Munido apenas de um bastão de beisebol e um pouco de coragem, Dave dá rosto ao “super herói” verdadeiramente humano, comum, sem poderes e apenas o desejo de ter uma vida incomum. Ele apanha [e como!!!], tem medo, é destreinado e se acaba todo para conciliar sua vida comum com as suas noites de aventura. E nem precisa de dramalhão ou novela mexicana, mas muito sacarmos, pela voz do próprio Dave que dialogo com o leitor, e uma ótima narrativa aliada ao traço autoral de Romita Jr. [que soube evoluir bem nesses anos de carreira].

A revista além de agradar bastante, de finalmente mostrar o que é ser um herói comum, serve como também como uma homenagem aos leitores, especialmente os hard-cores que tiveram que agüentar a década de 1990. Kick-Ass não pode ser considerado lá um clássico, mas por mim é. Sua primeira edição, ainda inédita no Brasil, é um exemplo de como fazer quadrinhos curto e grosso com qualidade, sem precisar extrapolar com personagens musculosos ou com espírito de grandeza em situações irreais. Simples, direto e sádico, Kick-Ass é mais um grande acerto de Millar nos quadrinhos, depois de Supremos e sua fase no Authority [que morreu depois de sua saída].

Uma adaptação cinematográfica da obra já esta a caminho, mas que se dane. Faça o possível para ler a revista antes de ver o filme. Não se iluda, Kick-Ass é obra feita para ser lida no papel [ou na tela do monitor através de Scans =p], e não na película. 

Dario Mesquita





Capa & Espada

31 08 2008

[Pequenos Guardiões vol. 1 e 2, 2008]

Três anos depois que causar furor no mercado de quadrinhos americanos, saem agora no Brasil os primeiros volumes da série independente “Os Pequenos Guardiões” (Mouse Guard), pela Conrad Editora. Criada por David Petersen,  a série quadriniza as aventuras dos membros da Guarda, um grupo de camundongos guerreiros designados para defender os civis em quais quer situações e manter o reino a salvo de futuras invasões.

De maneira bem despretensiosa, Petersen utiliza como principal pano de fundo os valores da cavalaria medieval, para aos poucos temperar esse ambiente com uma intrigante trama que acaba cativando o leitor a prosseguir com a trama. Apesar de econômico a cada edição  [umas das características do quadrinho underground americano], “Os Pequenos Guardiões” sabe criar nos seus mínimos detalhes elementos de um enredo que parece desembocar para uma conclusão grandiosa. E muito disto se deve ao traço do criador dos bravos camundongos.

David Petersen deixa de lado qualquer interpretação cartunesca sobre seu mundo e o recria da forma mais realística possível, apesar de seu principal público seja o infato-juvenil. Seus camundongos pouco guardam traços humanos e pouquíssimos elementos fantasiosos são utilizados, apesar duma trama medial erroneamente dita inspirada em Tolkien, o mundo que a Guarda tem que defender é arduamente realista e perigosa para seres com seu porte diminuto.

Com tudo isso, o autor se mostra um quadrinista consciente do valor de sua obra. Seus diálogos são curtos e eficientes, sua arte com o lápis é algo impossível de não admirar e sua diagramação simples consegue dar um ótimo ritmo a cada edição [dando aquele gosto de querer ler mais e mais!]. Interessante saber que esta é única grande publicação de David Petersen, mantendo quase totalidade de sua obra numa distribuição independente entre conhecidos e familiares.

Apesar de surgida numa estrutura com raízes no indie comics [a expressão underground comics parece ter ficado no século passado], se depender dos esforços do autor “Os Pequenos Gurreiros”  será adaptada para cinema numa animação em 3D, projeto em fase de pré-produção e sem previsão de lançamento. E promessas para continuidade da série é o que não falta nas palavras de David Petersen. Enfim, leitura recomendada para quem desejar ter contato com algum material do crescente mercado indie nos quadrinhos americanos atualmente.

por Dario Mesquita





Para rir um pouco

27 08 2008

Se está procurando prints, tirinhas hilárias, ou um site onde você pode ter acesso às curiosidades mais absurdas do mundo virtual, trago três dicas ótimas para navegar.

A primeira é uma espiada nos prints do site Tolices do Orkut que, como o próprio nome já diz, traz aberrações, micos e todos os tipos de furadas que alguém pode colocar (por inocência ou não) no orkut.

A segunda dica é o site de Tirinhas do Dr. Pepper (porque piada boa é piada ruim!), um lugar onde o humor negro é a chave de tudo.
Já a terceira é de um site super bacana chamado Bananas Frita. É isso mesmo, Bananas + Frita!
Há um arquivo bem bacana sobre as coisas mais absurdas do mundo virtual. E me parece que o Faustão é o “ídolo”!

Tolices do Orkut – http://www.tolicesdoorkut.com/
Dr Pepper – http://www.drpepper.com.br/
Bananas Frita – http://www.bananasfrita.blogspot.com/

Tania Samara

com edição de Carlos Rocha





DC Final

12 08 2008

Reflexões prévias sobre a Crise Final [a ultima esperança da DC?]

A temporada dos mega-crossovers está a todo vapor no mercados de comics americanos, um fenômeno de caça níqueis que geralmente acontece na segunda metade do ano e sempre vem acompanha de slogans que prometem mudar de vez tudo, até o a vida da cachorra da vizinha do Superman. No páreo dessa corrida temos as eternas Marvel e DC: a primeira com a velha fórmula de uma invasão alienígena [os Skrulls], evento chamado de Invasão Secreta; a segunda… a segunda… bem, a DC está sendo difícil de explicar com seu evento Crise Final, mas já falo melhor dela.

Observe, a Marvel anda fazendo direitinho seu feijão com o arroz, incrementando seu tempero com um conceito em que qualquer herói pode ser um alienígena disfarçado [podendo isso ser ou não uma justificativa para tampar alguns buracos na cronologia]. Brian Michael Bendis anda fazendo um serviço meia boca na série principal do evento, mas ao todo ela anda agradando bem a todos e está se saindo bem lucrativa para Marvel. E pelo que já li, só me empolgou a primeira edição, o resto anda meio que patinando ainda, sem novidades.

Agora a DC… assim como seu universo, ela anda numa crise braba. A cada mês ela perde mais leitores, a cada ano seu editor-chefe é jurado de morte pelos leitores. E sua cronologia anda uma bagunça sem fim mesmo depois da Crise Infinita, há uns dois anos atrás, que teria a função de deixar o ambiente mais agradável para velhos e novos leitores. Mas tudo desandou mesmo. Uma das poucas coisas que se salvam dessa transformação toda seria as série semanal 52, encabeçada especialmente pelo Grant Morrison [que já-já falo dele], e nova fase da Liga da Justiça, pelo escritor Brad Meltzer.

E há bem pouco tempo li a saga Guerra dos Anéis, com a Tropa dos Lanternas Verdes, e uma prévia do evento da DC, e mesmo ela sendo encabeçada pelo Geoff Johns, acabou ficando enfadonha e largou ampliou até demais o universo dos lanternas verdes [algo positivo e negativo, afinal, a existência de mais umas não sei quantas tropas de lanternas é exagero!]. Outra prévia mais direta do evento, Contagem Regressiva para Crise Final, ainda não li, e devo passar longe! A série foi detonada por todos os lados, acho que só os fãs hard-cores tem coragem de ler essa série depois de tantas críticas negativas [ela inclusive teve seu primeiro número lançado no Brasil este mês].

Quase tudo que antecedeu Crise Final da DC foi mais que água com açúcar, foram eventos massivos e confusos. Isso até lançarem a série Crise Final de fato. Fruto da cabeça doente de um autor como Grant Morrison, a série anda ganhando volume e características atípicas de um mega evento. Nesse fim de semana mesmo li a última edição (n. 03), e ao final só fiquei com aquele sorriso sádico me pergunta o que diabos Morrison está fazendo.

Não vou entregar muitos spoilers e nem tentar explicar, é impossível para mim [mas quem quiser explorar tudo, acesse aqui]. Para começar, Crise Final não tem muito haver com as primeiras crises até agora, ou seja, está imprevisível; e depois, o próprio Morrison já afirmou categoricamente que a série tem mais ligadas aos acontecimentos de 52 e suas série Sete Soldados da Vitória, ou seja, novamente, o evento parece estar mesmo nas mãos de um dos autores mais controversos do mainstream!

Grant Morrison é famoso por tirar coisas do baú, em Crise Final ele parece ter tido uma aula de história com o Jack Kirb sobre o Quarto Mundo e os Novos Deuses, e ele é mais conhecido ainda por desrespeitar a cronologia, desconsiderando fatos que considera idiotas demais. Morrison fez isto em X-men, ao dar vida a personagens considerados mortos [inclusive o Magneto, revitalizando-o], e com DC Um Milhão, recriando os universos paralelos quando eles não deveriam mais coexistir. Em seu trabalho polêmico com Batman RIP, ainda em andamento, Morrison explora um Bruce Wayne atormentado por um universo cheio de aberrações, e tenta recriar [ou matar] um personagem tão vazio que passou anos atrás da mascara do Batman.

As vendas de Crise Infinita podem estar abaixo da média, mas a série promete mais do que aparenta. Com Morrison a frente das principais idéias do projeto, considero que o universo DC possa sair mais confuso ainda, bem alterado [só lembrar o que ele fez com os X-men], feridas que serão difíceis de maquiar. Ë meio loucura deixar um projeto de tamanha magnitude nas mãos de alguém quase insano, que ou se ama ou se deseja sua morte.

Enquanto que a Marvel anda incrementando as fórmulas de um mega evento, a DC jogou tudo para cima e refaz seu conceito de mega evento. E eu quero mais ver o circo pegar fogo!!!

[Daria até para escrever mais, porém, é melhor esperar até dezembro, quando restarem apenas as cinzas].

Por Dario Mesquita





Dia da animação em Teresina… é só sonho

10 07 2008

Ate o próximo dia 15 as cidades brasileiras podem inscrever-se para sediar o Dia Internacional da Animação. O Dia da Animação vai acontecer em mais de 100 cidades brasileiras com a mostra de curtas-metragens e filmes de animação nacionais e internacionais.

A programação engloba uma hora de exibição de curtas-metragens e além da mostra oficial, ocorreram mostras paralelas, debates, workshops, palestras e confraternizações. Esta é a quinta edição do evento no Brasil, que vai ter entrada gratuita para criar novas platéias e .divulgar o cinema de animação. O evento nasce em homenagem a primeira projeção de imagens e desenhos animados, realizada em 28 de outubro de 1892, no Museu Grevin, em Paris, por Emile Reynaud.

Atualmente o evento é realizado em mais de 51 países e no Brasil é organizado pela Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), com o apoio do Ministério da Cultura (MinC). Só para dar a idéia aos prefeitos do Piauí o site para se inscrever é www.diadanimacao.com.br





Sites que chamam a atenção

3 07 2008

Tem coisas que estão na net que não podem passar em branco. Como bom matuto que sou em matéria de internet só posso ficar boquiaberto. A Revista O Grito tem um ano de vida e reúne informações sobre música, quadrinhos, cinema, livros, moda, teatro e tv. Ao todo a “publicação”, reúne ao todo 25 profissionais distribuídos em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro.

Além disso a revista conta até mesmo com um correspondente no Chile. Entre as notícias, destaco uma que é bastante interessante para os leitores que gostam de criar tirinhas. “Depois da boa notícia para novos quadrinhistas divulgada ontem com o lançamento do Prêmio Fnac Novos Talentos para quadrinhos, o Estadão lança o seu concurso de tiras. (…) Os vencedores, além da visibilidade, ganham também computador e caneta e mouse wacon intuos”, diz uma parte da notícia.

Me chamou a atenção na revista também a crítica ao filme “Agente 86”, voltado para uma sátira do mundo da espionagem americana a partir da série que fez sucesso nos anos 60. “Realmente conseguiram fazer diferente, sobretudo no que diz respeito à ação, aqui mais que o normal na série. O que permaneceu foram menos piadas ingênuas. O filme é fraco, mas como todo blockbuster de verão, provavelmente vai encher as salas de cinema. Ao contrário de outro agente famoso, Agente 86 é um patinho feio da espionagem. E talvez esse seja seu charme”, é parte do comentário do filme.

Para conhecer o site da revista O grito clique aqui.

Carlos Rocha





Morre Michael Turner…

1 07 2008

Notícia atrasada, mas ainda válida. Morreu no último dia 27 de junho o famoso desenhista Michael Turner, bastante conhecido por dar vida a personagens “clássicos” dos anos 1990, como Witchblade na moribunda Image Comics, pela Top Cow. Turner, que tinha apenas 37 anos, lutava há oito contra um tipo de câncer raro que atingia agressivamente seus ossos, o que o obrigou a parar suas atividades diversas vezes e a passar por diversas cirurgias. Assim, ele vinha nos últimos anos se especializando em produzir capas tanto para DC como para a Marvel.

Nunca fui fã do Turner, apesar dos pesares de que ele tinha sim um bom traço e tinha sua marca, mas era um traço educado demais, às vezes desproporcional, limitado demais a curvas femininas e músculos masculinos, marca registrada de sua geração mainstream dos quadrinhos. Entretanto, ele foi uns dos poucos que teve a sacada de fundar uma editora, a Aspen, criar uma personagem, Phantom [que desconheço] e ainda por cima produzir uma penca de capas para revistas importantes [Crise de Identidade, da DC, por exemplo].

A morte de Michael Turner me surpreendeu, e até doe um pouco na minha reles alma nerd. Lá se vai um pedaço da minha memória nerd durante a adolescência, quando os quadrinhos eram aborratados de mulheres atléticas em roupas mínimas [ou rasgadas xD]. Algumas artes abaixo.

Dario Mesquita





Meu demônio favorito

26 05 2008

Hellboy: A Feiticeira Troll e Outras Histórias [Mythos Editora, 2008]

É no conta-gotas que aos poucos as histórias de Hellboy saem nos Estados Unidos, em revistas pingadas ali e acolá da editora Dark Horse onde Mike Mignola sai com seu personagem para desfilar interessantes histórias curtas, juntando ironia e poesia em quadros. E nesse de pouco-a-pouco, Mignola faz suas coletâneas com estas edições, que conjugam um material autoral invejável que felizmente dá suas caras anualmente por esses lados da América do Sul, para a felicidade dos fãs de quadrinhos.

E é desses materiais que a Mythos Editora acaba por lançar recentemente no Brasil, o encadernado “Hellboy: A Feiticeira Troll e Outras Histórias”, que o demônio mais camarada dos quadrinhos em histórias inspiradas em lendas de diversos países, com o lápis do próprio autor e dois estimados convidados: Richard Corben, veterano do underground e senhor de um traço único; e P. Graig Russel, queridinho quando o assunto são histórias fantásticas, com uma arte mais tradicional em quadrinhos.

O recorte cronológico que este álbum trás são acontecimentos anteriores aos álbuns “O Verme Vencedor” (2005) e “Paragens Exóticas” (2007), onde Hellboy deixa de ser detetive da Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal (BPDP) e passa a ter aventuras solos. São episódios geralmente curtos que acontecem entre as décadas de 1958 e 1990, explorando lendas de diversos lugares do mundo que sempre fascinaram Mignola, ou seja, histórias leves e descompromissadas com a cronologia do personagem.

Isso sem esquecer os textos introdutórios feitos pelo próprio Mike, que se sente como nunca próximo de seus leitores, revelando mais dos bastidores e suas fórmulas criativas para a construção das histórias [lembrando muito o jeito despojado do Neil Gaiman].

Dentre os sete contos que compõem o encadernado, com certeza Makoma é a que se sobressai de todos. Inspirado numa lenda africana que conta a saga de um herói mitológico do título, Mignola coloca Hellboy na pele de Makoma, criando paralelos entre a saga dos dois personagens, conduzindo uma leitura deliciosa que se casa com o ótimo sarcasmo do demônio e do próprio autor [que está com humor afinado em todas as histórias].

Richard Corben, que faz o traço da história, também faz uma ótima participação, e se encontra ao desenhar personagens africanos, que combinam perfeitamente com seu estilo: lábios grossos e olhares marcantes. Ele não é tão “Jack Kirby” como Mignola, mas foi um dos artistas convidados que mais me marcaram em Hellboy.

Ainda há uma experiência interessante em “O Ghoul”, sobre uma criatura come cadáveres e a todo o momento declama poesias sobre a morte [para a impaciência de Hellboy], jogando assim recortes interessantes sobre a personalidade perturbada do inimigo.

Enfim, apesar do preço alto [quase 40 contos], “Hellboy: A Feiticeira Troll e Outras Histórias” é um revista que deixa qualquer fã coçando a mão para comprá-la, mesmo que ela não seja tão importante para a cronologia do personagem [que segundo Mike, já está definida como deve acabar]. Porém, quando se pensa que um álbum do personagem só venha a ser lançado novamente no Brasil daqui a um ou mais anos, bem, o investimento se torna válido. [E ainda cruzo os dedos para que a Mythos relance as primeiras histórias na época do lançamento do segundo filme... coisa que ela não fez durante o primeiro =/].

Ficha Técnica

Penanggalan – Mike Mignola (texto e arte) e Dave Stewart (cores);
A hidra e o leão – Mike Mignola (texto e arte) e Dave Stewart (cores);
A feiticeira troll – Mike Mignola (texto e arte) e Dave Stewart (cores);
O vampiro de Praga – Mike Mignola (texto), P. Craig Russel (arte) e Lovern Kindzierski (cores);
A experiência do Doutor Carp – Mike Mignola (texto e arte) e Dave Stewart (cores);
O ghoul – Mike Mignola (texto e arte) e Dave Stewart (cores);
Makoma – Mike Mignola (texto e arte), Richard Corben (arte) e Dave Stewart (cores).

Dario Mesquita – que também escreve fanfictions do Hellboy quando pode.





Uma fábula do espírito urbano

24 02 2008

Preto & Branco

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Já faz um tempo que escrevi sobre este manga [em 2002, penso], mas após ter notícias que ele recebeu um prêmio de melhor publicação japonesa lançada nos Estados Unidos em 2007 [lançado como conseqüência da estréia da adaptação em animação da história, distribuída pela gigante Sony Pictures], além que seu autor [Taiyo Matsumoto] também ser premiado no mesmo ano pelo Japan Media Arts Festival, por seu trabalho em Takemitsu Zamurai; considero que é válido re-visitar esta obra que ainda me intriga pela sua originalidade na arte seqüencial, e pela quantidade de lições que ela ainda pode guardar em seus devaneios.

Preto & Branco [Tekkon Kinkreet, 1998], mais do que nunca, provou para mim, nesses anos correntes, ser um verdadeiro clássico abastardo nem tanto reconhecido pelo grande público por fugir de muitos estereótipos de seu gênero e por tratar de forma surreal o imaginário do espírito urbano contemporâneo [que atormentará o sujeito moderno até o fim dos tempos].

Na obra, Matsumoto [re]inventa uma mitologia das cidades urbanas, atoladas de pessoas, propagandas, medo, lixo e esperanças abortadas. Colando-nos na visão de dois irmãos órfãos: Preto [o demônio violento] e Branco [o inocente]. Eles são garotos de rua que voam entre os prédios, anti-heróis marginalizados e anárquicos. Filhos naturais do próprio ambiente, a Cidade do Tesouro, tomada pela violência e corrupção, que funciona como uma estranha analogia real-fantasiosa da Terra do Nunca, onde as crianças reinam livres para carregarem consigo o espírito do lugar [e da sua época].

Nesse cenário, Preto e Branco regem sem medo sua cidade, roubando-a, alimentado-a, defendo-a com extrema violência [num certo toque de poesia sádica], sendo temidos e protegidos por todos [policiais, Yakuza...]. Vivem pelas próprias regras, como parte do ambiente urbano caótico e desfigurado, até o momento que aos poucos eles percebem que a cidade está mudando, e com ela suas vidas [ameaçadas pelos que pretendem incrementar uma reurbanização a todo custo].

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Assim, somos apresentados a uma realidade surreal, anormalmente violenta e bela, contraditória e de contrastes gritantes, carregada de metáforas cotidianas e um sentimento de que, assim como os personagens, estamos perdendo nossas raízes e vivenciamos a ansiedade de encontrar nosso lugar. Preto & Branco é uma obra de qualidades raras, complicadas de delinear sem antes refletir sobre a relação singular dos dois irmãos, Branco com sua visão surreal da vida [um quase poeta/ esquizofrênico] e Preto com sua natureza explosiva, que tenta a todo custo proteger sua cidade e seu irmão.

Quanto a Taiyo Matsumoto, ele é um mangaká único, underground, poético e de características inconfundíveis. Em seus traços tortos e detalhados, Matsumoto deixa explícito sua influencia européia, especialmente de Moebius, o que justificaria o viés surrealista que incrementa suas obras [ele também é fã de Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, algo que ele deixa implícito em alguns momentos de Preto & Branco].

No Brasil, Preto & Branco teve um lançamento tímido em 2001, em três volumes [o primeiro esgotado] pela Conrad, numa época em que mangá no Brasil era sinônimo de olhos grandes, roteiros para enchimento de lingüiça e com fórmulas prontas [típico de obras do “mainstream” japonês]. Eu mesmo comprei a publicação ao acaso, num canto de uma banca de revistas, ainda lacrada, sem ter mínima noção do que aguardava [e sem saber que era uma série, a Conrad pecou em não determinar isso em nenhum momento do livro].

Nunca me arrependi da aquisição desta série, e espero que com o lançamento do anime da obra no Brasil a Conrad pense em relançar Preto & Branco, numa versão encadernada, como aconteceu nos Estados Unidos.

Dario Mesquita