Thiago Meneses
Ser fã é, acima de tudo, reconhecer o imenso potencial de empatia que reverbera na figura de artistas, jogadores de futebol, grupos musicais ou mesmo um ente querido mais próximo, um amigo. E o grande potencial de agregação que se forma ao redor dessa tal figura mítica (o ídolo), que habita mentes e corações, é capaz de promover mobilizações, ora irracionais e insanas, ora comoventes. Acima de tudo, ser fã é poder, de alguma forma, externar diversos anseios, muitos dos quais reprimidos pelo dia-a-dia, onde os aspectos mais íntimos e pessoais são obliterados pela sequência esquemática de ações coordenadas pela rotina cotidiana. Ainda que a linha entre a lucidez e o fanatismo seja muito tênue, provar determinadas sensações provocadas pelos sentimentos advindos dessa prática tão paradoxal é perceber que a vida pode ser mais do que aquele velho esquema casa-trabalho-família-escola. No fim das contas, ser fã é querer estar junto de outras pessoas que tenham algo em comum para compartilhar, que reconheceram em determinada obra ou pessoa o significado do que venha a ser vida.
Semana passada eu tive uma experiência das mais comoventes sobre essa tal prática do ser fã. Um grupo, com aproximadamente 20 pessoas, saiu da Mesopotâmia Piauiense rumo à Terra da Garoa (ou seria mais precisamente rumo à Rua Augusta? Rsrsrs) para assistir ao show do Radiohead. O grupão se separou em dois ou três e saíram de Terehell em horários distintos. Fiquei no vôo das 4:30 da manhã de sexta-feira (20/03). Viajei com a minha irmã Tahiana, companheiro Edson, companheira Clarissa e Companheiro Chico Kaefe. O que tentarei explicar, a partir desse momento do texto, é como a viagem e o show do Radiohead puderam proporcionar sensações tão novas e interessantes.
A chegada a São Paulo e a sensação de estar naquela selva de pedra pela primeira vez era parecida para todos (exceto para Chico Kaefe e Clarissa, que já conheciam a cidade). A impressão que se tem, ainda no avião, é que existe todo um mundo suficientemente grande esperando lá embaixo. Grande em todos os sentidos. Do desembarque ao taxista maluco que nos deixou no Hotel (eu viria a descobrir nos próximos três dias que São Paulo está cheio deles), íamos sendo contagiados progressivamente com o clima cosmopolita e frenético da cidade.
O almoço nas imediações do simpático bairro Aclimação, a saída à Rua Augusta em uma noite de sexta-feira, o encontro com a rapazeada de Teresina, o contato com um californiano bem simpático já nos haviam dado um grande dia. Mas ainda tinha mais: por insistência da Tahiana (eu a agradeço até hoje por isso) fomos ao show do Mombojó, na casa chamada Studio SP.
Que a música do Mombojó é contagiante, todos já sabem. Mas o clima, pelo menos para mim, era o mais favorável possível. Seria uma grande prévia para os shows que se seguiriam no domingo. A tal necessidade – que vez por outra sinto, advinda principalmente das minhas leituras (de livros e de mundo), de extravasar e apostar todas as fichas em um momento que você sente ser único – geralmente não me deixa na mão. Quando me posicionei na fila para a entrada da casa de shows falei pra mim mesmo: - Essa noite vai ser ducaralho! A sensação de certeza vinha da intuição que faço em alguns momentos chave onde, acima de tudo, deixo-me acreditar. Encontrei a rapazeada de Teresina quebrando tudo e conheci pessoas legais também. A noite já estava ganha.
Ilustração 1: Felipe e Tahiana quebrando tudo no show do Mombojó
A ressaca do Mombojó logo foi esquecida pela apreensão do domingo. Engolimos o café e rapidamente nos apressamos em partir para a Avenida Paulista, onde encontraríamos (eu e Tahiana) dois amigos que já conheciam o itinerário até o local do show. A fila da chegada assustava. Uma horda de fãs já esperavam ansiosamente a abertura dos portões. Fizemos uma imensa caminhada até o final da fila e nos posicionamos com nossas capas de chuva recém-adquiridas.
Ilustração 2: Tahiana, Tito (prestes a ser lanchado) e Felipe; Eu, Graci e Tahiana; Eu, Graci, Tahiana e Beleleu; Nossos pés
A garoa caía de forma suave e a minha mente não parava de divagar. Naquela fila, numa terra estranha, eu comecei a pensar nas implicações da nossa cruzada em busca da banda prometida. O mais interessante é perceber que no meio de tanta confusão, ainda existe, sim, algo capaz de unir tantas pessoas em torno de um acontecimento. Talvez seja porque, diferente da escola, da faculdade, do culto ou da reunião familiar, o grau de espontaneidade envolvido naquele tipo de relação (adimirador e artista) seja muito maior. À medida que o tempo passava na fila, eu ia conhecendo pessoas, me comunicando (no sentido mais amplo da palavra, o tornar comum) e experimentando aquela sensação de pertencer ao lugar onde se está, justamente por provar dessa espontaneidade do qual somos tão privados diariamente. Essa interação fez com que as dez horas que ficamos esperando pela entrada do Radiohead se passasse de uma maneira bem agradável. A permuta de idéias, o aprendizado que se tira dessa interação, a proximidade e identificação com a atmosfera do local te preparam de uma maneira extraordinária para o que virá a seguir, no palco. E a coisa ocorre toda como um balão. Na hora que o artista entra no palco, você já inflado de euforia explode transbordando alegria por tudo quanto é lado.
Ilustração 3: Graci espera ansiosa pela apresentação dos Losermanos. Ao fundo, conversa espontânea com a companheira Lílian, amizade feita na fila do show do Radiohead. Além do quinteto britânico, Pete Doherty, David Bowie e muitos outros afins.
No show dos Losermanos foi mais ou menos assim: na primeira nota de “Todo Carnaval tem seu fim” você podia sentir a onda de entusiasmo que tomava conta daquela atmosfera. As serpentinas misturavam-se ao coro que cantava, brincando de ser feliz. O repertório, tão conhecido e vivenciado por mim, refrescava minha mente tanto quanto a fina garoa que caía e refrescava meu corpo. A multidão parecia, de fato, estar sintonizada com as músicas do grupo carioca, que voltava de um hiato de mais de um ano. Após os últimos acordes de A Flor, eu sabia que a banda que marcou época na história da música brasileira (é só olhar para o que era produzido antes deles, tanto em questão de discurso, como de estética) dava seus últimos momentos de contribuição para meu deleite pessoal.
Ilustração 4: Cinco horas antes do Radiohead subir no palco, a Chácara do Jóquei já estava abarrotada de gente; A alegria do fã ao conseguir uma vista privilegiada para o show.
O show do Kraftwerk foi bastante interessante. Como nunca me liguei muito no estilo da banda, prefiri assistir as pessoas assistirem ao show. O que mais me surpreendeu foi que havia muita gente que comprou ingresso para ver especialmente a apresentação dos alemães precursores da música eletrônica. Prestar atenção no público é uma experiência bastante rica. Tinha um gaúcho na minha frente que conhecia todas as músicas da banda. O cara dançava aquele eletrônico truncado de uma maneira muita engraçada. E cantava todas as letras. Completamente hilário!
Ilustração 5: Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante voltando aos bons e velhos tempos de Losermanos; Os alemães do Kraftwerk dando uma aula de história da música eletrônica à audiência
Quando os robôs do Kraftwerk se despediram, a expectativa que se criou em toda a Chácara do Jóquei se elevou aos extremos. A equipe técnica do Radiohead se apressava em montar a estrutura de palco que já percorrera vários países. Em pouco tempo, um conjunto de imensas lâmpadas foram posicionadas na posição vertical. Após montado o cenário, enfim chegara a hora: eram exatamente 22h de domingo (22/03) quando o Radiohead saudou o público brasileiro.
Ilustração 6: Equipe técnica do Radiohead se mobiliza para montar o cenário do show
As primeiras batidas eletrônicas de 15 step incendiaram todo o local. E o empurra-empurra, tão adorado pelos micareteiros*, parecia a ser a ação mais apropriada a se tomar. E para escancarar de vez, o Radiohead emenda There There. A canção, que segue cadenciada até um determinado momento, explode depois que Johnny pega a guitarra e Phil acerta em cheio a caixa da bateria. E as vozes ecoavam, felizes, cantando We are acidentes waiting to happen. Na música seguinte, o público se depara com um acontecimento insano. Quem nunca acompanhou um show do Radiohead deve ter ficado perpelexo ao ouvir um programa de rádio brasileiro ecoando pelas caixas de som da Chácara do Jóquei. Logo após, o riff de National Anthem é tocado. Mais empurra-empurra.
Ilustração 7: Johnny Greenwood; Johnny Greenwood e Thom Yorke
Não me surpreendeu o fato do Radiohead ter tocado o In Rainbows na íntegra. As canções funcionam muito bem ao vivo, além de ser um costume da banda dar prioridade para os trabalhos mais recentes em suas apresentações. Mas o grupo também soube diversificar. Todos os sete álbuns foram percorridos de maneira bastante equilibrada. Ao final do primeiro bloco de show, a passagem do Radiohead já entraria fácil na história das grandes apresentações realizados no Brasil. O coro do público em Karma Police, a piração dançante de Thom em Idioteque, a interpretação emocionada e sombria de Exit Music e o final arrasador com Bodysnatchers já passavam a sensação de dever cumprido. Os bônus só viriam a completar a bela apresentação da banda.
Ilustração 8: A iluminação variava conforme o clima da música; Ao fundo, imagens dos integrantes da banda sob os ângulos mais interessantes.
Ainda que o show em si tenha sido excelente, não custa nada ressaltar a carniça que foi a (des)organização do festival. Além do copinho de água custar R$ 5 e a cerveja custar R$ 7, nada foi mais desagradável do que querer sair por um dos acessos de segurança e ser obstruído. Os banheiros, em número imcompatível com a platéia de mais de 30 mil pessoas, obrigaram os fãs a transformarem o muro da Chácara do Jóquei em um verdadeiro mictório de dimensões descomunais. A saída do público, que levava pelo menos uns 40 minutos, a falta de indicação de transportes na área (eu soube depois que tinha uma estação de metrô próxima ao local do evento) e o arrombamento de mais de 50 carros que tinham pago estacionamento para ficarem protegidos, me fizeram perceber o quanto a organização dos festivais no Brasil ainda dorme no ponto no quesito tratamento ao público.
Mesmo com todos esses empecilhos, a viagem valeu a pena. O fechamento do show com o hit Creep, do primeiro álbum Pablo Honey, foi uma espécie de premiação. Além de ter sido uma música que marcou a minha trajetória, o refrão fácil de cantar, explosivo, ajuda a comungar no coro de vozes essa tal corrente que é esse negócio chamado fã. Desproporcional, exagerado, mas sempre intenso.
Radiohead
Chácara do Jóquei, São Paulo, Brazil
March, 22, 2009
15 Step (In Rainbows)
There There (Hail To The Thief)
The National Anthem (Kid A)
All I Need (In Rainbows)
Pyramid Song (Amnesiac)
Karma Police (Ok Computer)
Nude (In Rainbows)
Weird Fishes/Arpeggi (In Rainbows)
The Gloaming (Hail To The Thief)
Talk Show Host (B-side – Trilha Sonora do filme Romeu e Julieta)
Optimistic (Kid A)
Faust Arp (In Rainbows)
Jigsaw Falling Into Place (In Rainbows)
Idioteque (Kid A)
Climbing Up The Walls (Ok Computer)
Exit Music (For A Film) (Ok Computer)
Bodysnatchers (In Rainbows)
Encore 1
Videotape (In Rainbows)
Paranoid Android (Ok Computer)
Fake Plastic Trees (The Bends)
Lucky (Ok Computer)
Reckoner (In Rainbows)
Encore 2
House of Cards (In Rainbows)
You and Whose Army (Amnesiac)
True Love Waits (I Might Be Wrong)/Everything In Its Right Place (KidA)
Encore 3
Creep (Pablo Honey)