Entrevista com Alex Antunes, ex-editor da revista Bizz
por Thiago Meneses – Murilo Basso

A revista Bizz surgiu no ano de 1985, junto a um bom momento da indústria fonográfica brasileira. Foi por essas épocas que ocorreu o 1° Rock in Rio, bem como o “boom” do Brock, com bandas nacionais como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Blitz, RPM, Engenheiros do Hawaii estourando nas rádios de todo o país. Suas páginas, por muito tempo, foram a principal referência no Brasil sobre música. Com um estilo peculiar que ficou marcado pela irreverência, bom humor e críticas ácidas, a Bizz conquistou um público fiel que perdurou durante muitos anos, mesmo após o primeiro fim da revista, em 2001.
Após uma fase de geladeira, a revista teve esporádicas publicações, sempre na forma de “edições especiais”, até voltar novamente às bancas em setembro de 2005. Em um contexto totalmente diferente, onde a internet já era uma realidade, a revista não consegue manter a mesma longevidade de sua primeira fase e volta a cair em julho de 2007, com a última capa ironicamente retratando o fim da banda Los Hermanos.

Tentar entender os motivos que fizeram com que a Bizz caísse, provavelmente demandaria muito tempo e disposição para entender a complexa lógica de funcionamento de uma revista impressa em um mercado tão segmentado. No intuito de pelo menos nortear esse panorama tão complexo, é que eu (Thiago Meneses, estudante de jornalismo da UFPI) e o companheiro Murilo Basso (PUC-PR) entrevistamos, via email, alguns dos companheiros (Alex Antunes, José Flávio Júnior, Paulo Terron, Pedro Só) que atuaram nas diversas fases da Bizz. O que a gente pôde perceber, e acredito que o leitor também verá dessa forma, é que o problema é bem mais cabuloso do que um diagnóstico inicial possa supor: Fiquem a vontade, e tirem (será que é possível?) suas próprias conclusões.
Alex Antunes é jornalista, escritor e produtor musical. Dirigiu a revista Bizz, fundou a revista Set e escreveu para os cadernos de cultura da Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Veja, entre outras publicações; atualmente é colaborador da Rolling Stone Brasil.

Ainda existe crítica musical no Brasil? De que forma ela se manifesta? Onde ela está?
A primeira distinção a se fazer é entre crítica musical e crítica musical pop.
A crítica musical pop incorporou certos modos do jornalismo gonzo de Hunter Thompson e de seu principal seguidor no jornalismo musical, Lester Bangs. A saber, importa menos a discussão técnica e estética sobre a música do que o impacto subjetivo que ela provoca no (assim chamado) crítico, como ouvinte. A única coisa que distingue um crítico pop de um ouvinte comum é a disposição daquele em expressar sua percepção musical em um gênero líterário-jornalistíco, próximo do que no Brasil se chama de crônica.
A exacerbação dessa tendência levou à disseminação dos blogs musicais. Isso não é um fenômeno nacional. Nesse sentido há sim, crítica musical, cada vez mais – na medida em que há cada vez mais desses cronistas pop na internet. No sentido que aproxima a crítica pop da crítica musical erudita, há cada vez menos.
O mercado musical está cada vez mais segmentado. Sendo assim, ainda cabe uma revista de música no Brasil que se aproxime dos moldes da Bizz? De que forma ela se adequaria ao quadro atual?
O que determinou a importância da Bizz nos anos 80 foi a combinação entre determinadas condições político-sociais e de mercado, que permitiram que a revista apresentasse, por assim dizer, o Brasil urbano carente de uma expressão musical condizente com a juventude da época a uma onda emergente de rock (nacional e internacional) pós-punk.
A circulação de informação era precária. Não havia internet; nem todos os discos supostamente importantes eram lançados no país e a importação de vinis era cara; não havia tecnologia de reprodução doméstica de discos sem perda considerável de qualidade da cópia (fita K7, no caso); as próprias bandas brasileiras emergentes precisavam de um interlocutor na imprensa – os jornais mais antenados, como a Folha de São Paulo, ainda não tinham impressão em cores e não havia MTV, então o formato revista era importante inclusive na divulgação da imagem das bandas. Ao mesmo tempo, o impacto ainda recente do punk permitia uma discussão histórica das conexões entre a sonoridade da época e as raízes do rock e, em termos de Brasil, a relação entre as bandas de pop urbano e a música brasileira (questão colocada pela Tropicália e muito carente de respostas nos anos 80).
Evidentemente hoje não há a menor necessidade de uma revista que responda essas questões. Mas a saturação de informação através da internet e outros meios digitais abre espaço, sim, para um tipo de revista que proponha certos filtros de escolha e reflexão.
Existe uma deficiência de conhecimento, por parte dos grandes veículos de comunicação, desse público segmentado pela internet? Como conhecer melhor esse público, saber suas preferências e então, traçar estratégias no sentido de adotar uma linha editorial que sobreviva em meio a um mercado em crise?
A visão corporativa de imprensa é totalmente antagônica com a nova cultura eletrônica – cujas características são exatamente a simultaneidade e a desierarquização (como se vê inclusive nos festivais de formato mais contemporâneo). Um grande veículo jornalístico não tem critério nem espaço para filtrar simultaneamente toda a informação que circula, porque já não há um eixo, nem comercial nem cultural, em torno do qual organizar a diversidade dos fenômenos. Tudo é igualmente (des)importante.
Na verdade os grandes veículos jornalísticos foram superados pelas empresas de tecnologia voltadas para as ferramentas de circulação, e não de geração, de conteúdo. Nesse sentido, um site de relacionamento – sem filtro artístico que não seja o das próprias tendências da música pop, como o MySpace – faz um dos principais papéis que as revistas de música já fizeram. A não ser, claro, no caso de uns poucos fenômenos de mercado. Uma revista como a Capricho, tratando do RBD, por exemplo, evidentemente ainda cumpre um papel comercial, mas jornalisticamente irrelevante.
Pior que isso, o que restou da crítica nos grandes veículos ainda se dá ao luxo de hostilizar fenômenos notáveis – como o rock emo – ao invés de tentar compreendê-los melhor. Uma revista de música pop hoje teria que se equilibrar, com extrema habilidade, entre material histórico e fenômenos de transitoriedade muito rápida, pinçando artistas que ilustrem, de alguma forma, essa aceleração do processo cultural.

Se adequando as novas tecnologias e aos novos padrões de vendagem, o que significa ser bem sucedido hoje em dia com uma revista impressa?
Há um paradoxo hoje entre custos industriais e patamares viáveis de distribuição. Com o agravante, no Brasil, do tamanho do território e do fosso de hábitos de consumo entre as capitais e o interior.
Uma revista que venda 10 ou 20 mil exemplares, para determinados nichos, seria uma revista muito bem sucedida. E pode até ser, se tiver anunciantes fortes. Mas o que era o anunciante forte para a música pop – as gravadoras – desapareceu. Então, uma revista de cultura pop precisa de uns 50 ou 70 mil leitores – mas isso dificilmente irá acontecer.
O que mudou no “fazer revista cultural” da década de 80 para os anos 2000?
A horizontalidade, a simultaneidade, a desierarquização. Uma revista feita com a mentalidade antiga – de levantar ou de derrubar artistas de acordo com uma luta por espaço no mainstream, seja por razões comerciais ou ideológicas, simplesmente não faz mais sentido, já que não há mais mainstream.
Quais seriam as formas ideais de tratar a informação em uma revista impressa hoje, principalmente levando-se em consideração as novas tecnologias?
Não está claro ainda. A tentativa mais interessante, no Brasil, foi a da revista Play, da editora Conrad. Mas, no papel impresso, a navegação não-linear não funciona. A revista que tenta se comportar como um site simplesmente fica suja e editorialmente picada demais.
Existe uma espécie de nostalgia com formato consolidado nos anos 80 e 90 que talvez não fosse o “ideal” para o atual momento?
Para um pequeno nicho, sim. Mas teria o mesmo impacto cultural de um show com Leoni ou Morrissey. Ou seja, não muito.
Quem era o nicho ou “público alvo” da última fase da revista BIZZ? Quais as formas para perceber suas especificidades?
Eram os antigos leitores da fase áurea da revista, agora na faixa dos 20 e muitos aos 50 anos, e de maior poder aquisitivo. Mas a revista não dialogou bem sequer com esse público. Por exemplo, os entrevistões (seção de maior fôlego da revista) fixaram-se em artistas da fase intermediária dos anos 90 – Nando Reis solo, Marisa Monte, Lenine – e insatisfatórios, portanto, tanto do ponto de vista dos saudosos quanto dos que prefeririam material atual.

As dificuldades financeiras para a realização do jornalismo cultural são uma extensão direta da própria questão cultural? Como isso afeta os leitores e os anunciantes?
Sim, essa é uma boa maneira de resumir: as dificuldades jornalísticas e financeiras para a realização da cobertura cultural são extensões diretas da dinâmica da própria questão cultural. É um contexto complexo demais para ser vendido a um anunciante (já que uma revista vende muito mais a sua importância a esse anunciante, do que vende os produtos desse mesmo anunciante a seus leitores).
Como era a relação entre revista e anunciantes/patrocinadores nos anos 80? Quais mudanças ocorreram ao longo desses 20 anos?
O prestígio da Bizz nos anos 80 permitia total autonomia entre a redação e a área comercial. Houve caso de um álbum ser massacrado na seção de crítica, e ter um anúncio de página inteira ao lado. Aconteceu com o Jean-Michel Jarre, por exemplo. Claro que o anunciante não gostava, e podia até mandar reclamações sobre o mau-humor da redação em determinadas críticas – como aconteceu com o Gilberto Gil, que considerou uma resenha particularmente ofensiva. Mas nada disso abalava a percepção do anunciante de que estar na revista era imprescindível. Cheguei a imaginar um marketing invertido para explorar essa credibilidade: quando o RPM ia ter seu filme produzido (algo que nunca aconteceu) e nos ofereceu merchandising, propus para o diretor de grupo que entrássemos em uma cena em que a banda lesse a revista e comentasse: “Pô, eles estão falando mal da gente de novo”. Mas ele não achou boa idéia (risos).
Hoje, em função das dificuldades comerciais, uma revista teria que ser bem mais cautelosa com os anunciantes. Na verdade, as revistas pequenas vendem matéria casada com anúncio. Obviamente isso não faz bem pra credibilidade de ninguém, nem do anunciante. O próprio leitor tem vergonha de encontrar um anúncio junto a uma matéria que elogie o próprio artista.
Como é a relação da imprensa musical com o meio artístico?
Na cartilha gonzo, um jornalista é um igual, ou seja, alguém com o mesmo direito a quebrar copos e dar vexames.
Na cartilha do mais recente jornalismo de celebridades, é um baba-ovo acrítico, diametralmente oposto ao jornalista objetivo da cartilha tradicional.
Um jornalista perfeito, hoje, saberia incorporar saudavelmente algo esses três modos:
a) ganhando o respeito dos artistas ao freqüentar os mesmos ambientes com a mesma paixão;
b) entendendo o funcionamento do celebrity system, e reconhecendo os raros artistas que hoje tem o carisma para crescer em diferentes públicos;
c) guardar algo da objetividade e da crítica para ressaltar os aspectos estéticos do trabalho de alguém e relativizar, em seus textos, a importância dos outros aspectos (casuais) da notoriedade.
Não sei se existe algum desses.
