Disco novo apresenta Coldplay se distanciando do som que marcou sua carreira

Inicialmente taxado pelas canções melancólicas reconhecíveis no piano de Chris Martin e na guitarra de Jon Buckland, o Coldplay ganhou notoriedade maior logo com seu primeiro disco, “Parachutes”. Recheado com pequenos clássicos como Don’t Panic e Shiver, o álbum ficou mesmo marcado pelo sucesso de singles como Yellow e Trouble, ambos com repercussão aqui no Brasil. Lançado em 2000, gerou expectativa sobre o próximo trabalho, que sairia dois anos depois.
“A Rush Of Blood To The Head”, como todos sabem, foi o disco que fez o Coldplay tornar-se o que é hoje: rendeu uma vendagem expressiva [12 milhões de cópias], gerou hits radiofônicos e a banda acabou conhecida do grande público. Nese embalo veio a fama e o sucesso, acompanhado pelo enquadramento definitivo no mainstream, além do ego de Chris Martin. O fato é que a tour do disco novo foi extensa, rendeu um DVD ao vivo e revelou a ambição que virou sinônimo de deboche e ironia sobre a banda: o Coldplay queria ser U2.
Ao contrário das críticas apontarem uma simulação sonora por parte de Martin e sua turma do som de Bono e The Edge, a grande proximidade reside mais no envolvimento com causas humanitárias e a pretensão de encher estádios, atingindo um público cada vez maior, pairando como uma espécie de unanimidade.
Embora fosse um desejo meio ambíguo, especulava-se se tal vontade afetaria a música que fariam em diante, já que composições como Clocks apontavam para algo mais, digamos, distante do intimismo e da crueza dos primeiros singles.
Lá se foram 3 anos até a chegada de X & Y, o terceiro de estúdio na carreira deles. Esse trabalho respondeu algumas dúvidas suscitadas. Primeiramente, a banda mostrou buscar novas direções, mas sem mudanças bruscas, talvez outro legado que os irlandeses do U2 tenham deixado. Afinal, arrisca-se com cautela para não perder os fãs, que deram sinal de aprovação para o álbum, com vendas em torno de 10 milhões de cópias. Número vistoso e na contramão da crítica, bastante dura e explícita, rotulando o álbum, entre outras coisas, de preguiçoso e enfadonho, com letras beirando à chatice.
Houve quem apontasse que o disco anterior tinha blindado a banda, que continuava com apresentações lotadas na nova tour. Algumas resenhas posteriores reconheciam que não se tratava de uma obra de gênio, mas o Coldplay continuava bom. Não era apenas uma continuação preguiçosa do A Rush Of Blood To The Head, pois uma evolução mínima se descarregava em detalhes por cada faixa. No fundo, o grupo permitia-se transgredir um pouco a cada lançamento.
O que esse pensamento capta de essencial vale para a interpretação que o quarto disco, lançado em junho deste ano, mas previamente vazado na internet, impõe.
“Viva La Vida Or Death And All His Friends” veio à luz anunciado por várias notícias divulgadas nos últimos meses. Desde a escolha dos produtores Brian Eno e Markus Dravs, passando pelas novas influências até a descrição de algumas músicas feitas pelos próprios músicos, tudo saía na imprensa. Mas a escolha do título, e a razão que levaram Martin a associar Frida Kahlo à sonoridade que rondava o estúdio nas gravações pareceu o fato mais intrigante.
Mesmo aos que aproveitaram a citação para satirizar o que vinha pela frente, não havia quem arriscasse com exatidão como seriam as músicas. A verdade é que as mudanças anunciadas vieram, mas ainda tímidas. Ao menos não na intensidade que a banda poderia oferecer, se assim quisesse.
Sim, há mudanças rítmicas em boa parte do álbum, novas texturas partindo da primeira faixa, a instrumental “Life In Technicolor”, e que se estendem nas subseqüentes, com ligações sutis entre elas. Na introdução de novos instrumentos e orquestrações, o grupo foi criterioso, não sufocando a melodia de belos temas com camadas sobrepostas. Está tudo lá, exigindo apenas uma auscultação mais atenta.
Quando ofereceram o primeiro single, “Violet Hill”, para download gratuito em seu site oficial, a imprensa e os fãs chegaram a supor que o disco seguiria a sua linha. Com sua guitarra suja e bateria maciça impondo-se, marcante [ponto para Will Champion], a canção encarna uma das facetas em que escolheram investir. Prova são as palmas marcando o tempo em “Cemeteries Of London” e “Lost!”, esta com uma melodia irresistível, talvez fruto dos ares espanhóis que tanto impressionaram a banda durante as gravações.
E, sem dúvida, as “viradas” em faixas como “42′” e “Yes” contemplam uma velocidade muito própria ao disco, surpreendendo com a passagem do piano triste de Chris Martin ao dream pop em segundos. São desdobramentos que deixam uma vivacidade mais atraente, desdobrando-se em invocações que vão do amor ao protesto político mais claro. Como ponto fraco destaca-se “Strawberry Swing”, que se perde no conjunto por repisar variações estilísticas previamente usadas no disco.
A mão dos produtores mostrou-se precisa em induzir mais do que realmente existe, sem, entretanto, perder a autenticidade. O interessante é que não decepciona de verdade, não importa se quem esperava mais do mesmo ou aguardava mudanças que o colocassem num novo patamar. Sem dúvida, os tons que permeiam o disco são dissonantes dos trabalhos anteriores, dando razão à associação proposta por Martin. As notas revelam-se e se contraem num plano de fuga que, surpreendentemente, não cheira à indecisão. As cartas são dadas na medida em que as novas experimentações foram absorvidas. O Coldplay passa por mais um teste, indicando a busca de novos caminhos, cada vez mais ensolarados.

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