Speed Racer [2008]

Hmmm… Digo logo que detesto filmes de corrida. A última coisa remota que assisti com um certo interesse foi o filme-coroa “Dias de Trovão”, e “Mad-Max” não vale porque vai além de carros correndo, e nem a animação “Carros”, que é a coisa mais fraca feita pela Pixar [ok, "Insetos" também é, mas ele ao menos é inspirado no filme japonês "Sete Samurais", dirigido por um senhor lendário acolá]. Pois bem, quando fui ver “Speed Racer” já estava contaminado com minha vivência com esse tipo de filmes, que se adicionada à leitura rápida de algumas críticas.
Então, eu não esperava muita coisa além de piruetas psicodélicas, piadas de filme infantil em espírito 70´s e alguns minutos sacais de diálogo familiar. Mas ainda tinha aquela esperança criativa que guardo dos irmãos Wachowski, coisa que só alguns têm depois do terceiro Matrix e do roteiro controverso V de Vingança [do tipo: ame, odeie ou mande-se-fuder-porque-Alan-Moore-fez-melhor].

Pois foi justamente essa maldita esperança que salvou o filme! [e só esqueci de dizer que também não sou fã de Speed Racer, e nem gostava tanto assim dele. Mas, quem com menos de trinta e poucos anos seria oO?].
“Speed Racer” é uma puta salada de influências. Os irmãos simplesmente injetaram drogas alucinógenas e uma nova contextualização a um anime clássico que pouca gente acreditava que iria dar certo. Ora, logo nos primeiros trailers eu ficava me indagando “mas… que porra é essa? Tá pior que aqueles filmes do Batman!”. Penso que todo mundo sabe dos exageros dos Wachowski, e de como isso às vezes derruba suas produções. Mas eles conseguiram fazer uma mistureba autêntica, e justamente num filme que se diz voltado para o público infantil [o que considero uma forma de conseguir vender ‘bibelôs' com maior facilidade].
Não sei se um guri em seus doze anos, ou menos, teria como digerir um roteiro que vaga entre a pura ingenuidade a intrigas de conspiração bem trabalhadas. Ou estou ficando mais velho e não percebo que eles podem facilmente encarar isso. A verdade é que Speed é um dos poucos filmes dito “família” que não cospe da sua inteligência e nem rouba seu dinheiro em troca de efeitos especiais vazios [ok, alguns vão dizer que os efeitos são vazios].

O filme é muito bem trabalhado numa narrativa não linear, recorrendo a flashbacks que inicialmente parecem sacais, mas que depois mostram seu charme e originalidade, dando ousadia na edição e no andamento do roteiro. A hipertextualidade foi um recurso louvável por trazer significado a muitos momentos, especialmente no fim.
Os diálogos não são tão descartáveis assim, cada um funciona ao seu modo, só retirando quando ele tenta “ouvir” seu carro [Mas quem já conhece animes japoneses, sabe que essas conversas com o "nada" são a coisa mais comum. Lembra de Dragon Ball falando sozinho no meio da desgraça sobre técnicas absurdas de luta? Pois é, estou até com medo do filme que vez por ai].
E os atores ajudam ainda mais neste ponto. Aparentemente eles foram escolhidos a dedo, atuando de acordo com cada personagem do desenho [ao menos até onde posso lembrar]. São personagens rasos, mas que quando bem trabalhados, ganham o carisma do público facilmente. Gorducho, o caçula da família Racer, e Zequinha, o macaco de estimação, são dois ótimos exemplos, que juntos dão o tom infantil da obra, mas não perdem a piada, como aconteceria é qualquer filme do gênero.

Sim, e as corridas? Só quero dizer que graças a elas, ganhei uma puta dor de cabeça em contraste com meus largos sorrisos no rosto por elas serem bem trabalhadas e tensas [E nem reclamem da artificialidade-videogame. Porra, os veículos lutam kung-fu quase!]. Enfim, é um jogo do F-Zero/Wipeout turbinado à sétima potência, num ambiente totalmente new-rave, com violência inorgânica voando pelas bordas da tela. São ótimas, e me deixaram louco por um joystick.
Speed Racer é um filme família atípico, inteligente até certo ponto, dotado de um humor negro de desenhos animados, ótima cenas de ação, não abusa tanto o lado sentimentalista, além muitas cenas chapantes de corridas. Um ótimo filme pipoca, daqueles de anestesiar os sentidos. Se for sensível a dores de cabeça, leve um remédio, não faça como eu. E sente na última fila. Se sair arrependido no final, só lamento.

[Ps.: Não explorei nas entrelinhas do no texto acima, mas espero que aqueles que acompanham a obra do Wachowski, percebam o quanto a temática da luta contra a autoridade/sistema está presente em seus filmes. Algo que fica sob os efeitos especiais, mas que desta vez também é coberto pela ingenuidade dos personagens. Ou seria isto uma filosofia barata dos irmãos?].
Por Dario Mesquita